12 de setembro de 2013

CARNIÇA: THRASH DOS PAMPAS

Com mais de 20 anos de estrada, o trio gaúcho Carniça é uma das bandas mais influentes do thrash nacional. Tendo base a sujeira e a agressividade, lançaram em 2012 seu melhor trabalho até o momento, chamado Nations of Few, que é dono de músicas empolgantes como Diablo Politician e a faixa título. Outros atrativos são uma versão “carnicenta” para I Wanna Be Somebody (WASP) e a participação do guitarrista Cláudio David (Overdose) em Prayers Before the Death.

Nesta entrevista, a banda, formada atualmente por Mauriano Lustosa (voz e baixo), Parahim Neto (guitarra) e Marlo Lustosa (bateria) nos conta da repercussão do disco, da participação do músico do Overdose e muito mais.

Confiram:

Por João Messias Jr.

Nations of Few
Divulgação
NEW HORIZONS ZINE: O terceiro trabalho, Nations of Few apresenta a mesma linha do trabalho anterior, Temple’s Fall...Time to Reborn, só que com uma produção mais refinada, além do aprimoramento como músicos. Na opinião da banda, como comparam o novo trabalho ao anterior?
Carniça: Achamos que o disco segue na mesma linha do “Temple’s”, porém está mais direto e agressivo. É muito fácil falar de agressividade em discos de heavy metal, pois toda a banda diz sempre isso, mas quem conhece nosso trabalho anterior e escuta esse sente o que estamos dizendo. O disco também foi feito com mais calma, logo teve uma produção mais caprichada, aproveitando mais o fator estúdio, compondo o material e gravando, podendo assim sentir melhor as composições.

NHZ: A atual formação está junta há um bom tempo. Visto que não é uma tarefa fácil, pois sempre haverá divergências, como administram a saúde da banda e a amizade?
Carniça: Isso é o mais fácil! Somos parentes, irmão e primos, logo o lance é em família mesmo. As divergências são poucas, acontecem, mas são mínimas perto de algumas bandas, pois prezamos pelo respeito a cada um dos integrantes e suas particularidades. É como um casamento de 22 anos em que o casal se ama. Existem briguinhas, mas no final é puro entendimento. Já nos casamos, separamos, trocamos de namoradas, mas a formação continua sólida.

NHZ: Assim como no álbum anterior, vocês continuaram com o sarcasmo. Em “Temples...” a “inspiração” era a Santa Ceia, agora é uma espécie de conferência, com algumas personalidades importantes do mundo, decidindo o futuro da nação. Como surgiu a inspiração dessa capa?
Carniça: Veio ao encontro das Nações de Poucos. Líderes que pensam e agem em prol deles mesmos e de uma minoria aos seus redores. E isso acontece em todo planeta, não só no Brasil. Logo, o que tinha de ser uma coisa séria, em prol da humanidade, torna-se uma festa, uma confraternização de tiranos em favor de seus grupinhos. Essa foi a concepção da banda para a capa, que teve mais uma vez a execução de Anderson Neves.

Carniça
Divulgação
NHZ: Chegaram a ter medo de alguma represália das autoridades por isso?
Carniça: O maior problema que tivemos até agora foi com o uso dos discursos do Lula e do Collor na eleição de 1989 na música Diablo Politician. A empresa que prensa os discos em Manaus queria uma autorização dos políticos citados por escrito, o que óbvio não rolou nem nunca rolaria. Usamos assim mesmo mediante termo de compromisso e foda-se, pois qualquer um que acessa o youtube tem acesso aos discursos verborrágicos e mentirosos desses vagabundos.

NHZ: No álbum anterior vocês regravaram Hell Awaits (Slayer), para esse disco, uma versão thrash para I Wanna Be Somebody (WASP). De quem foi a ideia de fazer uma versão para essa canção?
Carniça: A ideia acho que foi do Parahim (guitarra) e do Marlo (bateria), mas foi consenso de toda banda que, assim como Hell Awaits se encaixava em Temple’s Fall, I Wanna Be Somebody seria o cover perfeito pra Nations of Few. É uma música genuinamente heavy metal e sua letra fala de um sujeito que quer ser alguém logo na vida (típico da politicagem brasileira). Colocamos nossa roupagem nela e acho que o resultado foi massa.

NHZ: Ao término da canção, há um silêncio e alguns minutos depois uma espécie de interlúdio instrumental, chamado Nowhere, que nos remetem aos grupos da Bay Área, em especial Testament e Forbidden. Qual a influência desses grupos no som da banda?
Carniça: Também achamos que ficou muito parecido com Testament. Comentamos isso com o Parahim após a produção deste bônus. Em Temple’s Fall há uma outra composição do estilo, chamada Paradise. Olha, apesar de curtirmos, estas bandas não são bem as maiores influências da Carniça. Hoje existem muitas bandas de muita qualidade que foram para esse lado Thrash 80’s. Seria legal que eles absorvessem o espírito e criassem coisas novas, com identidade própria. Mas o que se vê é muito clone do Death Angel, Whiplash, Nuclear Assault, Artillery e Bay Area bands. Uma lástima, pois o processo criativo no Metal está morrendo. Quando essas bandas jurássicas e inovadoras que criaram o estilo acabarem, o rock pesado terá que ressuscitar, pois sem criatividade o estilo vai enfraquecer muito. Não são todas as novas bandas, lógico! Mas o processo evolutivo tem de acontecer.

NHZ: Vocês sabem se o mentor do WASP, Blackie Lawless chegou a ouvir a música?
Carniça: Seria legal se acontecesse. Quando gravamos o material, consegui licença com o escritório que gerencia a carreira do WASP, mas não sei se o material chegou a ser repassado ao próprio Lawless. Quando o CD ficou pronto agora em dezembro, enviei um exemplar para os EUA. Seria muito bom uma análise de quem fez a música, né?

NHZ: Nations of Few conta com a distribuição da Voice Music. O que estão achando da parceria e qual a importância de se ter um selo hoje em dia?
Carniça: A Voice Music é uma das principais distribuidoras de som pesado do Brasil, senão a maior. Ajuda muito, pois o CD está junto a grandes nomes do cast, logo o lojista tem maior acesso ao nosso trabalho. É um tipo de parceria em que todos ganham. A banda chega em lugares onde não chegaria, a distribuidora têm mais nomes no cast para negociar e o público acaba achando mais facilmente nosso material.

Temple's Fall
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NHZ: O trabalho tem duas agradáveis surpresas: a primeira é a participação do guitarrista do Overdose, Cláudio David na faixa Prayers Before the Death. Como surgiu a ideia?
Carniça: Foi um fato único e memorável para a banda. Somos fãs do Claudio e do Ovedose há anos! A ideia veio do Mauriano, de ter uma participação fodástica no álbum. O Marlo (bateria) entrou em contato com o Claudio pelo Facebook e começamos o “namoro”. O cara é incrivelmente gente fina e curtiu a banda, a energia dos sons. Ele é um puta produtor e gravou a parte dele em BH. Juntamos aqui no nosso estúdio em Novo Hamburgo e a parceria foi selada. Foi um orgulho imenso ter ele imortalizado num disco do Carniça!

NHZ: A participação do músico não ficou restrita ao disco, pois o guitarrista participou de algumas apresentações aí no Sul. Qual a sensação de ter um cara que foi um dos pioneiros do estilo no Brasil participando de um show com vocês?
Carniça: Meu, sem palavras. Todo o processo foi muito bom, desde pegar o cara no aeroporto, apresentar ele à um verdadeiro churrasco gaúcho, tomar umas biras juntos até a madrugada e ouvir verdadeiras pérolas da história do metal brasileiro, que praticamente surgiu em BH. Overdose e Sepultura foram os expoentes, então não precisa dizer mais nada, né? Tudo foi proveitoso! Fora de ter divido o palco em três músicas, pois além da Prayers Before The Death, tocamos “Anjos do Apocalipse” e “A Ultima Estrela” do Overdose. Inesquecível!

NHZ: Diablo Politician possui trechos em português e se adequou bem ao som de vocês. Como surgiu a inclusão destes trechos e se podemos ter mais músicas em português no futuro?
Carniça: Quando o Mauriano estava produzindo o disco, sentiu falta de deixar o recado mais claro, mais direto pra galera. Ter uma identidade com a corrupção brasileira, estas quadrilhas que usurpam a nação. Tinha estes trechos na mente e queria um refrão forte, tipo espanhol, que brazuca entendesse. Encaixamos os trechos das entrevistas da campanha à primeira eleição direta brasileira na parada do baixo e todos curtimos. Não é à toa que o encarte traz letras em português também.

Carniça
Divulgação
NHZ: Infelizmente uma tragédia ocorreu numa boate em Santa Maria, que acabou com muitos mortos e famílias destruídas, graças à falta de estrutura necessária para a realização de eventos. Como o caso teve repercussão mundial, quase todas as casas serão interditadas ou fechadas para melhorias. No que isso prejudica bandas como o Carniça?
Carniça: É foda. Antigamente tínhamos muito efeito pirotécnico em nossos shows, muito mesmo, e mesmo sempre tendo cuidado o fato de Santa Maria nos fez refletir bastante. Mas como tu falaste, trata-se de uma tragédia, infelizmente com precedentes e muitos culpados. Na verdade, a ganância em arrecadar e reinvestir pouco já era percebida, até mesmo no tratamento às bandas. Na cena, agora teremos um tempo de adequação e mais rigor às leis. Pensamos que tudo que melhore a segurança das pessoas é válido, mesmo que se cerrem momentaneamente alguns lugares. Também pode ser que as casas venham a ter mais respeito pelo show business todo, estendendo melhor tratamento às bandas.

NHZ: Agradeço pela entrevista! Deixem um recado aos leitores desta publicação.
Carniça: Agradecemos imensamente o espaço valioso oferecido à nós e sempre quando possível comprem material das bandas do underground nacional, apóiem os shows e curtam suas vidas sem pensar que governos irão ajudá-los, pois eles querem somente o “emburrecimento” da população. Povo-gado é mais fácil de governar. Nós queremos o contrário, queremos que os bangers reflitam cada vez mais sobre os assuntos do nosso interesse enquanto brasileiros. Temos que sair da letargia e as armas do nosso protesto é nosso som, nossa inteligência. Isso é mais uma coisa que torna o metal um estilo único e incomparável! HEAVY METAL NEVER DIE!