17 de fevereiro de 2014

UGANGA: “ESTRADA É TRABALHO DURO E SE VOCÊ ACHAR QUE É FESTA PODE FICAR NO MEIO DO CAMINHO”

São vinte anos de estrada, três álbuns de estúdio, um disco ao vivo, dois giros pela Europa e muita história para contar. Esse é o Uganga, quinteto mineiro cujo som possui base no thrash metal e hardcore, mas que abre espaço para experimentações e essa mistura aparece cada vez mais coesa, como podemos ouvir em seu último registro, o álbum Eurocaos Ao Vivo, que como o nome diz é um trabalho que registrou a banda nos palcos. Com uma boa produção e  sem truques e maquiagens, o CD mostra de forma honesta como é uma apresentação do quinteto formado atualmente por Manu Joker (voz), Christian Franco (guitarra), Thiago Soraggi (guitarra), Raphael Franco (baixo) e Marco Henriques (bateria). O trabalho além das músicas ao vivo, apresenta versões para bandas como Sepultura, Sarcófago, Stress e Pastel de Miolos, um trabalho gráfico caprichado e um diário de bordo com um relato da tour escrito pelo próprio vocalista.

Nessa entrevista, os cinco integrantes do grupo nos conta da convivência na estrada e do novo álbum que está sendo preparado, que terá o título de Opressor.

Confiram:

Por João Messias Jr.

Eurocaos ao Vivo
Divulgação
NEW HORIZONS ZINE: Rapaziada, em primeiro lugar, parabéns pelo excelente trabalho no CD Eurocaos Ao Vivo, que sintetiza muito bem como uma banda deve se portar no palco, sem truques e maquiagens. Como se prepararam para a gravação do show? Pois ouvindo o disco temos a impressão que estão calmos e tranqüilos.
Manu “Joker”: Obrigado pelos elogios mano! Estamos bem satisfeitos com esse álbum e realmente trata-se de algo crú e sem maquiagens, como achamos que deve ser. Essa formação está bem segura, nos conhecemos há um bom tempo e tocamos juntos há 12 anos, com exceção do Thiago que está conosco há seis. O show do Razorblade foi quase no final da tour e a banda estava realmente bem afiada. Na verdade minha garganta já não estava a mesma, pois vinha de uma seqüência de mais de 10 shows direto e nesse dia bebi bastante, mas no final rolou legal (risos).

Thiago Soraggi: Conseguimos um bom resultado no disco porque trabalhamos muito antes e durante a tour. Como era a primeira experiência fora do Brasil, fomos preparados para dar o melhor, independente de tudo. A seqüência de shows antes das gravações ajudou bastaste, pois por mais cansados que estivéssemos, no palco era outra historia, todo mundo na pilha para mostrar que a mineirada estava representando bem Minas Gerais e o Brasil no velho mundo.

NHZ: O álbum foi gravado na Alemanha e Portugal em 2010. Quais os motivos da escolha desses países para a gravação?
Marco Henriques: A idéia inicial era gravar no Razorblade, na Alemanha, por se tratar de um festival maior, com uma estrutura legal. Nós já havíamos combinado com o mesário sobre a gravação e fomos pra Europa com o esquema já meio acertado. O show de Portugal foi um bônus, não sabíamos que seria gravado. Mas o resultado ficou legal e acabou entrando no CD.

Raphael Franco: Na verdade não houve uma programação quanto a isso, o que aconteceu é que nesses dois shows a equipe de som estava com equipamentos que possibilitava a gravação e nos ofereceram por um preço quase que simbólico e daí resolvemos registrar os shows que acabaram virando o nosso primeiro disco ao vivo.

Uganga
Divulgação
NHZ: A primeira parte de trabalho é baseada no último registro de estúdio, o aclamado “Vol.3: Caos, Carma, Conceito” (2010). Quais os motivos de não colocarem materiais dos álbuns anteriores?
Manu “Joker”: Quando fomos pra Europa pela primeira vez não estava decidido que iríamos lançar um disco ao vivo. Sabíamos da possibilidade de gravar o material, mas como ele seria usado, ainda não estava definido. Olhando pra trás, acho que seria válido termos incluído alguma música mais antiga tipo “Procurando O Mar” ou “Çorrida”, mas na época o foco era promover o “Vol. 03:...” e o material desse disco foi priorizado. Por esse motivo decidimos colocar as faixas bônus e acho que o resultado final ficou legal. Tem sons do “Vol.03:...” tocados ao vivo e versões de bandas que curtimos, além de faixa multimídia, encarte, livreto, etc. Estamos conversando sobre gravarmos um DVD comemorando dos 20 anos do Uganga em 2014 e nesse show com certeza tocaremos coisas mais antigas, além de material inédito até aqui.

NHZ: Outra parte do repertório são versões ao vivo e de estúdio para clássicos do Sepultura, Sarcófago, Stress e Pastel de Miolos. O que essas canções representam para o Uganga e qual a importância delas estarem no disco?
Manu “Joker”: Sepultura e Sarcófago são influências no Uganga, direta ou indiretamente, dependendo dos integrantes, mas são. Somos de Minas Gerais e não tem como não ser influenciado, não só por essas duas bandas, como por outras da fase de ouro da Cogumelo como Overdose, Holocausto e Witchhammer. Eu particularmente venho dessa geração e em relação ao Sarcófago a ligação se torna ainda maior por ter tocado na banda e gravado na minha opinião, a versão definitiva de “Nightmare”. Além de tudo, misturar as duas bandas no setlist é nossa maneira de prestar um tributo a ambas e dar um belo foda-se pra toda a rivalidade  que sempre existiu, e que nunca nos interessou. Stress é um ícone do metal latino americano e não pensamos duas vezes para aceitar o convite para participar do tributo feito pela Metal Soldiers (Portugal). Gravamos em Goiânia no Rocklab em um dia (mixamos no outro) com o Gustavo Vazquez, com quem fizemos nosso CD novo. Com o Pastel De Miolos foi a mesma coisa, é uma banda clássica do punk baiano, e gostei da nossa versão. Gravamos aqui em Araguari no Vintage Estúdio praticamente ao vivo com uns chegados fazendo os backings, tipo festa mesmo. Por fim, ainda colocamos umas vinhetas, coisa que fazemos desde o primeiro álbum e que poucos entendem (risos).

Cartaz tour europeia
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NHZ: Junto com as músicas, o trabalho possui um acabamento caprichado em slipcase, que vem com um segundo encarte que é um diário de bordo contando as aventuras de uma banda na estrada. Esse diário foi algo planejado para o disco ou essa idéia apareceu depois?
Manu “Joker”: Desde moleque me amarro em escrever. Comecei a fazer um diário da tour de 2010, todos acharam legal e resolvemos coloca-lo num segundo encarte no CD com mais uns depoimentos dos outros integrantes e do Eliton (Tomasi, empresário da banda). Saiu mais ou menos no formato da minha coluna no zine Páginas Vazias, com fotos, etc. Eu sou da velha escola e gosto de ver o material todo, não só ficar baixando música pela internet.

Marco Henriques: Queríamos lançar um material bem completo, mostrando bem como foi a tour. Ter esse diário foi demais, a pessoa tem uma idéia bem clara da realidade do que uma banda independente vive em uma tour pela Europa. E, além disso, acaba sendo um material mais atrativo pro consumidor, que vai levar um CD, um livreto, um vídeo da tour, um encarte com fotos... Em dias que as pessoas preferem baixar uma música do que comprar um disco, temos que buscar sempre algo além do básico.

NHZ: Ainda falando no diário, que reflete como é a vida de uma banda na estrada. Para aqueles que pensam que fazer tour no exterior é as mil maravilhas, conte-nos dos apuros e situações inusitadas que aconteceram com a banda.
Manu “Joker”: Cara, estrada é trabalho duro e se você achar que é só festa pode ficar pelo meio do caminho. Em nossas duas tours pela Europa, assim como no Brasil, passamos por várias experiências, todas muito positivas, pois delas vem o aprendizado. Não é fácil ficar sete caras dentro de uma van por um mês, comendo comidas diferentes das que está acostumado, lidando com línguas que não entende nada, estradas que não conhece, temperamentos e personalidades distintas, além de alguns malas que vez ou outra aparecem (risos). Tivemos bebedeiras, treta com um nazi, passamos calor, frio, poucas horas de sono e até brigamos entre nós na Espanha (risos), mas tudo dentro do tolerável. Na verdade, o Eliton, nosso manager, organiza essas tours de maneira bem profissional e já na de 2013 tivemos uma estrutura muito superior à primeira, o que nos permitiu ralar menos e curtir mais.

Raphael Franco: Acredito que nem nas turnês das grandes bandas conhecidas mundialmente seja só mil maravilhas. Acho que ninguém acorda de bom humor todos os dias, ainda mais depois de viajar mil kilometros apertado numa van, fazer um show e dormir numa cama estranha. Uma tour como essa é cheia de altos e baixos, sempre, dias excelentes e dias de puro estresse, sempre vai rolar uma roupa suja pra lavar (risos), mas é assim que se aprende e se exercita a aceitação. No caso do Uganga, acredito que tudo isso tenha sido positivo, que no final acabamos crescendo como verdadeiros amigos.

Uganga
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NHZ: A formação da banda também está estabilizada há um bom tempo. Como cuidam da amizade e convivência, visto que a vida na estrada não é fácil e qual a receita para que a situação não perca o controle?
Raphael Franco: Tentamos levar o respeito dentro da banda na frente de qualquer coisa. São cinco cabeças diferentes o que acarreta em muitas vezes cinco opiniões distintas sobre um mesmo assunto, então se não houver respeito e aceitação para se chegar em um consenso e tomar decisões, com certeza não funcionaria como tem funcionado.

Manu “Joker”: Fácil não é, mas tem funcionado (risos).

Thiago Soraggi: Existe também o fator família na história da banda que eleva a questão do respeito. São duas duplas de irmãos e eu, o bastardo inglório da parada (risos). Creio que independente da situação, boa ou ruim, conseguimos levar como objetivo principal o coletivo positivo do Uganga. O compromisso com a banda vem na frente de qualquer opinião divergente, qualquer desentendimento pessoal ou profissional. Acho que fórmula não existe, mas se existisse os pilares seriam respeito e dedicação.

NHZ: Curiosamente, Eurocaos ao Vivo foi lançado dez anos após o primeiro disco de vocês, Atitude Lótus. O que representa essa década para a banda e podemos dizer que o recente trabalho fecha um ciclo?
Christian Franco: A palavra mais adequada pra mim é consolidação do nosso som, o que também não quer dizer estagnação. Encontramos uma forma de trabalhar e dentro dela temos um monte de coisas para melhorar, mas a identidade tá pronta.

Manu “Joker”: Pra mim representa a maturidade da banda. Começamos como algo experimental e descompromissado e do segundo álbum em diante encontramos nosso estilo que vem sendo aprimorado desde então. Basicamente trabalhamos com metal e hardcore, mas à nossa maneira, sem seguir uma formula de um determinado estilo seja thrash, crossover, metal core ou sei lá o que mais... A primeira década foi de busca e a segunda de aprimoramento.

Marco Henriques: Experiência, estrada, aprendizados e a criação de uma identidade sonora. Hoje a banda tem uma identidade forte, que não tinha há alguns anos, mas que nunca teria se não passasse por tudo que passou nesse tempo.

Uganga
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NHZ: A banda já anunciou o nome do novo álbum que recebe o título de Opressor. Podem adiantar alguma coisa sobre esse trabalho: direcionamento, letras, previsão de lançamento, etc?

Christian Franco: Peso, groove e letras positivas, como sempre foi e falamos, mas dessa vez de uma forma mais forte e bem mais lapidada.

Manu “Joker”: É Uganga na essência, mas com uma clara evolução em todos aspectos. Pra mim é isso.
 
NHZ: Para encerrar, como estamos iniciando um novo ano, digam quais as expectativas da banda para 2014.
Marco Henriques: Lançar o novo disco, trabalhar bastante e tocar muito! Voltar nas cidades por onde passamos, conhecer novos lugares... Estrada!

Thiago Soraggi: Em 2013 conseguimos atingir todas as metas que traçamos e em 2014 não será diferente! O novo disco está pronto, mais pesado, mais coeso, vamos trabalhar ainda mais forte no próximo ano!

NHZ: Obrigado pela entrevista! Deixem uma mensagem aos leitores desta publicação.
Manu “Joker”: Agradecemos o espaço para divulgar nossa música, esperamos encontrar todos vocês na estrada e se quiserem saber mais a respeito do Uganga acessem nosso site. Apoiem as bandas independentes e autorais! Saúde e paz a todos!
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