11 de março de 2016

"A GENTE FEZ UMA HISTÓRIA BONITA"

Quem somos nós para discordar desta frase dita por Christian Passos. Um sujeito calmo, sereno e que ficou conhecido nacional e internacionalmente por meio da banda Wizards. Numa trajetória que contou com seis álbuns, uma coletânea, além de vários shows e sucesso por Europa e Japão.

Em sua primeira visita ao ABC paulista, o músico se apresentou na agradável noite de 7 de novembro de 2015 no Bar Retrô Old Is Cool, em Santo André levando covers do hard e pop, além de músicas do grupo, como Promisse of Love e Thunderbolt. 

Nesta oportunidade, Christian conversou com o New Horizons Zine, falando da cena nacional, da trajetória do grupo e algumas situações não muito confortáveis do passado. 

Com vocês, Christian Passos:

Por João Messias Jr.

Christian Passos
Divulgação
NEW HORIZONS ZINE: Christian, como essa é a primeira entrevista que faço contigo, vou mesclar presente, passado e futuro. Vamos começar falando quando o Wizards lançou o primeiro disco pela JVC, saindo primeiro no Japão e teve excelente repercussão. Você acha que se tivesse a internet tanto esse disco quanto o Sound of Life teriam tido melhor resultado?
Christian Passos: Ah, certeza! Acho que hoje a internet faz a banda. Tem muita banda que hoje faz sucesso sem gravadora, sem rádio, só pela internet. Se tivesse a internet na época a gente ia abranger muito mais gente. Se o Wizards voltar algum dia a gente vai colocar tudo em quanto é canal digital, pois é o que vai vingar a partir de agora.

NHZ: Até porque o material físico alguns compram.
Christian: O público do heavy metal compra. Porque quer ter o disco, ver as letras, ver a capa. O público do metal é um dos que mais compram.

NHZ: Na época do Sound of Life, que saiu aqui em 1996 via Roadrunner Brasil, vocês contavam com o mesmo empresariamento do Angra. Na sua opinião, porque você acha que a banda não decolou, visto que na época o metal melódico era um nicho forte, com bandas como o Stratovárius vindo pra cá, o pessoal estava redescobrindo o estilo mais neoclássico. O que aconteceu para o Wizards não decolar?
Christian: A gente começou junto com o Angra. Aliás, nossa banda é mais antiga que o Angra. A gente tinha o mesmo empresário, o dono da Rock Brigade (N.do R. – Antônio Pirani). Como tínhamos o mesmo empresário, ele preferiu priorizar o Angra e meio que esconder a gente até onde conseguiu. Ai, por outros métodos, consegui arrumar outra empresária e aí conseguimos o contrato com a JVC do Japão. Mas o mercado daquela época era do Angra, era basicamente Angra. Na Rock Brigade só se via Angra e o Wizards era como se fosse um concorrente pra eles. O Angra não tem culpa, quem teve culpa foi o empresário.

NHZ: A forma como a coisa foi organizada.
Christian: Exatamente. Mas isso faz muito tempo já, passou.

NHZ: No álbum Sound of Life, vocês flertaram com o hard rock e até músicas como Reach Out tocaram nas rádios da época. Analisando esse disco hoje e com o interesse das pessoas nesse estilo, pensam em fazer um relançamento dele e dos outros discos?
Christian: Acho que sim. Se a gente voltar com a banda, que é o que estou pretendendo e lançarmos disco novo, com certeza a gente vai ser obrigado a relançar tudo. Você não encontra mais CD do Wizards por aí. É muito raro, e quando encotra você acha a preços absurdos.

Christian Passos
Divulgação
NHZ: Você cantou hoje aqui clássicos do hard e pop, além de sons do Wizards. Qual a sua satisfação em levar sons da banda e ver que passados mais de 15 anos do lançamento do primeiro disco, ver gente curtindo as músicas da banda?
Christian: A gente fez uma história bonita! Foram seis CDs, uma coletânea, muitos shows, a gente fez bastante sucesso em rádio, TV, Europa, Japão. Infelizmente a gente não conseguiu prosseguir a banda por “N” motivos. Mas só da gente toda hora ser interpelado, perguntado, tem muitos fãs que falam com a gente que gostam da banda. Só isso já basta. Foi uma história que mesmo se não voltar já está marcada pra sempre.

NHZ: Essa volta é algo concreto ou apenas rumores?
Christian Passos: Não chega a ser concreta. Estou conversando com os membros originais da banda. Eu gostaria de voltar para uma comemoração, pois a banda vai fazer 25 anos em 2017. Então, de repente em 2016 preparar um CD novo  e no ano seguinte voltar, pois esse número é um número legal, um número cheio. Estou lançando para o pessoal. Eu gostaria que fosse a formação original. Se eu não conseguir, vou pensar se eu trago outros membros que já tocaram com a gente. Senão, penso em fazer algo novo, que não seja Wizards, mas que tenha a minha pegada.

NHZ: Lembro que na época você montou um projeto em português e uma banda mais agressiva chamada Visceral. O que esses trabalhos representaram pra você naquele momento e pensa em retomá-los hoje?
Christian: Eu tenho um trabalho muito forte em português, muito maior que em inglês. Eu tenho mais músicas em português do que em inglês. Depois que o Wizards parou, trabalhei com algumas bandas, fiz muita coisa que acabou não alcançando mídia, mas aconteceram em pequena escala. Eu tenho muita vontade de regravar materiais em português com certeza.

NHZ: Agora vamos falar um pouquinho da cena do metal nacional. Temos banda pra caralho e internet pra ajudar. Mas para aparecer em grandes publicações, só aparece quem tem assessoria de imprensa ou que tenham um grande produtor. Hoje você consegue fazer as coisas apenas tocando na raça?
Christian: Não. Ou você tem realmente uma assessoria, um fã clube ativo, ou uma banda que todos os integrantes vistam a camisa. Além do talento, tem de ter uma grana legal para investir em videoclipe, internet, no próprio show. A coisa ficou muito profissional. Ou você tem uma estrutura legal ou faz apenas por amor. Muita gente hoje em dia trabalha em outra coisa e faz a banda por amor, por hobby.

Christian Passos
Laura Lessa
NHZ: Aproveitando o gancho. O que pensa da situação do músico no Brasil, em especial o de heavy metal. Ele tem de trabalhar em outra coisa e o que recebe vai investir na banda. Mas ele não vai poder largar o emprego dele pra se dedicar inteiramente a música.
Christian: Não tem como mesmo. Na minha época de Wizards era difícil e hoje em dia pelo que vejo, está muito mais. Houve uma renovação de público. O pessoal do heavy metal não parece muito unido, pelo menos as bandas e empresários. Parece que tem muita rixa um com o outro.  O público quer escutar o máximo possível. Precisava ter uma união mais forte entre bandas e empresários, como acontece em outros segmentos como o sertanejo e o samba. O pessoal se une bastante pra fazer o movimento acontecer, como deve ser feito com o heavy metal.

NHZ: Em 2011, vocês tocaram no Carioca Club que teve bandas como Hangar e Almah. Teve muito bololô na internet, todo mundo agitando e teve cerca de 300 pessoas (N.do R.: A casa tem capacidade para 1500). A médio prazo, você pensa que isso pode melhorar?
Christian: Tem de melhorar. Não podemos deixar  o heavy metal enfraquecer tanto. Tem de surgir algumas coisas novas em termos musicais, acho que tem muita coisa saturada que poderia ser renovada, mas sem perder a pegada do heavy metal. Acho que tá muito a mesma coisa, muito dois bumbos, muita técnica, muito agudo. É legal, mas é cansativo. Acho que na minha opinião precisa voltar mais para o clássico.
Hoje em dia inclusive eu mudei o meu jeito de cantar. Antes eu cantava muito agudo, com falsete. Eu não canto tanto mais agudo, mas uso uma voz mais forte, mais clássica. Acho que isso está faltando um pouco para o heavy metal: uma reciclagem e ao mesmo tempo uma volta ao clássico. Seria uma boa pra gente voltar a crescer.

NHZ: Deixe uma mensagem aos leitores dessa publicação.
Christian: Fazia muito tempo que eu não cantava Wizards e não tinha de novo contato com os fãs. Claro que foi a primeira vez e a gente ta meio que tomando alguns tombos, mas tá muito legal. Hoje foi uma noite muito boa e acho que vou querer fazer mais e vamos ver o que acontece!

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