10 de janeiro de 2018

A RESISTÊNCIA

Trio potiguar mostra que a região nordeste vai muito além do forró

Por João Messias Jr.

Whocantbenamed
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É verdade que já faz algum tempo que temos música boa rolando por todos os cantos do país. Porém, não é de total erro vir na cabeça as características musicais que cada região brasileira apresenta. Conhecida pelos grandes grupos de axé e forró, a região Nordeste bravamente marca a sua resistência nesse cenário com muita coisa voltada ao rock/metal. Os mais velhos lembrarão de grupos seminais como Nephastus, Shock, Insanity e Mystifier.

Trilhando o caminho deixado pelos grupos acima, temos formações que mostram sangue nos olhos e aquela vontade de vencer. Como a galera da Heavenless. Rapaziada do Rio Grande do Norte que estreou ano passado com o debut Whocantbenamed. Trampo embalado por uma capa interessante, que mostra a morte e o sertão nordestino mescladas de forma homogênea. Ponto para a banda e o criador Hugo Silva.

Musicalmente o som do trio formado por Kalyl Lamarck (voz e baixo), Vinicius Martins (guitarra) e Vicente Andrade (bateria) tem predominância pelo death e thrash metal. Porém, uma audição detalhada mostra um grupo antenado com seu tempo, soando contemporâneo, graças aos elementos que vão do hardcore ao metalcore, além de uma guitarra bem timbrada, que carrega de forma sutil referências de grupos como Nação Zumbi e Sepultura.

Outro elemento marcante na música dos caras fica por conta dos climas doom, que dão aquela sensação de "crime perfeito", mostrando que encontraram seu estilo logo no primeiro trabalho. O que nos permite se deliciar ao som de pedradas como a faixa de abertura Enter Hades (cheia de groove), Hopeless (que deve funcionar muito bem nos shows) e The Reclaim, esta conhecida dos fãs graças ao seu vídeo disponível no Youtube.

Uncorrupted também chama atenção pelo ritmo quebrado e predominantemente thrash e Point-Black encerra de forma homogênea o disco.

Whocantbenamed confirma a tradição nordestina de seguir com grupos de nível alto, além de manter a resistência numa região que predominam os ritmos regionais.

21 de dezembro de 2017

VIRANDO O JOGO

Registro brutal e eclético é a receita vitoriosa de Far Beyond Existence

Por João Messias Jr.

Far Beyond Existence
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A resposta está no trabalho, é fato, porém o que aconteceu com a Torture Squad é no mínimo curioso. Quando muitos pensavam que o grupo finalmente havia se estabelecido com o seminal álbum Esquadrão de Tortura (2013), a banda mudou de formação mais uma vez, trazendo Mayara 'Undead' Puertas (voz, ex-Necromesis) e Renê Simionato (guitarra, Guillotine), que somado aos veteranos Castor (baixo) e Amilcar Christófaro (bateria) lançaram um single, fizeram shows pelo Brasil/Europa e o resultado desse entrosamento tem nome: Far Beyond Existence, que merece um capitulo a parte na história do grupo.

Quem olha a capa feita por Rafael Tavares (Chaos Synopsis, Bloody Violence) pode pensar que teremos um trabalho que voltará aos tempos de Asylum of Shadows (1999) ou The Unholy Spell  (2001). Embora alguns elementos se façam presentes, estamos diante de um trabalho técnico, ousado e moderno, sem abrir mão da crueza que imortalizou o death/thrash metal.

Riffs bem sacados e construídos aliados a uma cozinha criativa que somados aos vocais brutais de Mayara, soltam músicas fortes e trampadas nos nossos ouvidos. No Fate é aquele tipo de som que você percebe muitas coisas acontecendo em termos musicais, sem abrir mão da agressividade. O mesma descrição cabe para Don't Cross my Path, além de  possuir um groove interessante.

Blood Sacrifice começa com um clima oriental, capitaneado pelos vocais limpos e cítara para depois a desgraceira tomar conta. Participações especiais se fazem presente aqui. Dave Ingram (ex-Benediction) na cadenciada Hate. A tradicional Cursed by Disease conta com a narração de Edu Lane (Nervochaos). You Must Proclaim começa a lá Annihilator/Coroner ganha os vocais de Luiz Carlos Louzada (Vulcano/Chemical Disaster).

Just Got Paid é um cover do ZZ Top (a banda dos barbudos), que consegue a façanha de manter as pirações da versão original sem largar o lado agressivo, além de ter no gogó Alex Camargo (Krisiun). Pensa que acabou, o melhor ficou para o fim com Torture In Progress.

Contando com Marcelo Schevano (Carro Bomba, Golpe de Estado, Casa das Máquinas) no Hammond, temos nove minutos de pura viagem musical. Soando como um encontro de Black Sabbath, Led Zeppelin, Rush Slayer e até um certo clima minimalista.

Unknown Abyss possui narrações, uma espécie de 'outro', que encerra o CD com um singelo "Don't Cross My Path" (não cruze o meu caminho) , de uma banda que soube passar por cima dos momentos de incerteza e tem tudo para trilhar um momento vitorioso. Impressão reforçada com o acabamento em slipcase e um encarte avulso com as traduções das músicas.

20 de dezembro de 2017

LUTAR E CONSCIENTIZAR

Paulistas apostam no thrash metal com conteúdo lírico de conscientização

Por João Messias Jr.

Numa época em que todo mundo é metido a entender de política, religião e filosofia, temos gente que passa bem o recado sem cair no ridículo, além de transmitir um som que prima pela energia. Essa  é a receita básica que ouvimos em Nação Em Fogo, primeiro álbum full da galera do Torrencial.

Passeando pela escola brasileira e americana do thrash metal com alguma coisa do hardcore/crossover, temos sons destinados aos palcos e sem aquela preocupação de ser descolado ou moderno. O lance aqui é bater cabeça.

Seja nos momentos mais trampados, como Ilusão (que tem partes bem Sacred Reich), Ao Redor e a faixa título ou nos mais diretos como Busque e Confronte, temos músicas bem feitas e construídas, que são amparadas por uma ótima produção, arte bem feita (a cara do grupo, aliás) e um acabamento gráfico que convence. As participações de Alexandre de Orio (ex-Claustrofobia), Rafael Lopes e Rafael Paiola também dão aquele plus na bolachinha.

As canções são complementadas por letras que embora falem dos problemas e situações corriqueiras do nosso país, sem soarem de esquerda ou direita. Vão no sentido da conscientização. Como toda banda que prega a luta em suas canções deveria fazer.

15 de dezembro de 2017

EXPERIÊNCIA A FAVOR

Gods of Chaos, quarto trabalho do grupo aposta em melodias e climas mórbidos

Por João Messias Jr.

Gods of Chaos
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Em constante ascenção, o Chaos Synopsis mostra mais uma vez o motivo de cada vez mais fãs de metal olharem para o som do quarteto. Ao invés de ficarem presos no molde musical que os fez reconhecidos, Jairo Vaz Neto (voz e baixo), Luiz Ferrari  (guitarra), Diego Santos (guitarra) e Friggi Mad Beats (bateria), inserem novos elementos sem mudar a essência. 

A bola da vez aqui foi incorporar mais melodias no trampo das guitarras além de uma bem sacada dose de morbidez. Fusão que deixou as músicas marcantes e grudentas, o que pode atrair fãs de outros ,como o metal tradicional. Storm of Chaos e Serpents in Flames são exemplos do que fora dito no começo do parágrafo. Mas os caras não esqueceram da essência brutal que os fizeram conhecidos. Ouça a faixa de abertura Raising Hell e o som que nomeia o disco, essa com uma veia doom metal. 

Outros momentos de destaque ficam por conta da regravação de Cocaine (Andralls) e Black God, que conta com os convidados Uappa Terror e Wojciech Michalac nas vozes.

A capa, mais uma vez feita por Rafael Tavares merece uma citação. Rica em detalhes e privilegiando os tons preto e vermelho, seguramente é uma das melhores do grupo e do artista.

Um excelente trabalho dessa rapaziada de São José dos Campos que soube como usar a experiência ao favor.

14 de dezembro de 2017

A NECESSIDADE DE CRIAR ALGO NOVO

Após álbum e singles, banda retorna ao estúdio e lança novo trabalho

Por João Messias Jr.

T-Project
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Engana-se quem pensa que o Tiberius Project é um grupo novo. Com dez anos de estrada e capitaneado por Dibih Tiberius (vocal) e Dennis Martins (guitarra) tem na bagagem um álbum, participações em coletâneas e um single. Depois de um longo período longe dos estúdios e agora acompanhados por Fernando Guimarães (baixo), Daniel Passos (guitarra/teclado) e Assunção (bateria), soltam trampo fresquinho, o EP T-Project.

Musicalmente a banda passeia pelo metal, em especial o heavy e o thrash, sem querer ser um filho bastardo dos anos 80, com ótimos riffs e construções harmônicas e bateria marcante, que mostra logo a que veio em O Segredo.

Young Flowers Don't Have to Die conta com ótimos solos e vocais inspirados em caras como Alice Cooper. Santa Claus in Hell é divertida, com direito a riffs 'speed'. Starvation, que possui um interessante vídeo,  é mais cadenciada além de  possui solos de tirar o fôlego enquanto a longa United for Metal - The Hymm dá números finais ao trabalho.

Uma banda madura, formada por músicos experientes que só precisa tomar cuidado com os vocais. Por seguir uma linha não tradicional e usual, algumas ideias não ficaram legais, como na citada O Segredo. Talvez vozes mais retas resolveriam o problema. Algo para o grupo pensar a respeito. Principalmente para os próximos trampos.

9 de dezembro de 2017

NA CONTRAMÃO

Grupo abraça de vez o rock alternativo em novo trabalho

Por João Messias Jr.

Keep on Naked
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Keep On Naked, novo EP da banda Threesome faz uma espécie de viagem no tempo. Especificamente na década de 1990, período em que o fã de rock começava a se cansar das plumas e paetês vindas do hard rock e com isso, seguir algo mais despojado, simples e direto. Não era difícil ver fãs, antes com camisetas de formações como Guns and Roses e Bon Jovi, aderindo estampas do Nirvana e Sonic Youth.


O primeiro todos sabem, foi uma explosão mundo afora, com situações dignas de nota, contrastando com momentos constrangedores. Já o grupo liderado por Kim Gordon e Thurston Moore, embora tenha tido seus momentos nos holofotes, vai além, por não apenas englobar um estilo, mas uma estética que envolve o todo. Passando a resgatar a temática do "faça você mesmo", envolvendo as etapas de produção, gravação e conteúdo lírico, sem influências externas.

Vibração que encontramos no disquinho do quarteto hoje composto por Juh Leidl (vocal/guitarra), Fred Leidl (guitarra/piano/vocal), Bruno Manfrinato (guitarra), Bob Rocha (baixo) e Henrique Matos (bateria). O material possui duas regravações do CD de estréia, Every Woman, aqui chamada ERW, com aquela pegada despojada e que ao mesmo tempo bem chiclete, graças aos vocais bem encaixados de Juh.  Why So Angry, aqui batizada Sweet Anger vem um pouco mais pesada, mas com vozes que embora inusitadas, se encaixaram bem na canção, além de solos de tirar o fôlego.



A inédita My Eyes lembra um pouco o que a turma de Kurt Cobain fez no passado, apesar da voz de Fred Leidl fazer vir a memória Luiz Gustavo (ex-Pin Ups).

A inspiração noventista não ficou apenas no som. O trabalho foi concebido e produzido no próprio estúdio do quinteto, além do conteúdo lírico feito para provocar a reflexão no ouvinte, sem pregar e vender essa ou aquela temática.

Recado dado, agora é esperar a próxima investida da Threesome.

23 de outubro de 2017

ÚNICO

Melodia, rispidez e passagens atmosféricas atingem ápice musical em novo trabalho do grupo

Por João Messias Jr,

Magna Adversia
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Quem olha as fotos do experiente quinteto brasileiro, pode pensar 
que estamos diante de um grupo tradicional de black metal. Impressão injusta, pois o que a banda que conta hoje com T. Sword (voz), Mantus (guitarra), Ristow (guitarra), Vulkan (baixo) e Abyssius (bateria) engloba diversos elementos do estilo. Desde a agressividade dos primórdios dos tempos de Venom e Mayhem até o lance pomposo que ficou popularizado por formações como Dimmu Borgir e Cradle of Filth.

Sem ser cópia de nenhum dos grupos citados acima, o quinteto atingiu seu ápice criativo, criando um instrumental denso e pesado e vocais que ficam entre a rispidez e o desespero. Características que por si gerariam tranquilamente um material interessante, mas temos mais. Melodias sinfônicas e soturnas agregam mais ao material, o tornando mais mórbido e melódico.

Todos os elementos citados aparecem logo de cara em Infidels. Interessante que essa combinação de nuances gera um ritmo denso e hipnótico, que nos faz querer saber o que virá pela frente. A seguinte, Axis, as guitarras soam como uma sinfonia, enquanto Heartless soa como um hino de guerra graças a levada marcial.

A Two-Way Path figura entre os pontos altos do disco, graças ao seu andamento lento e sinfônico que ganha partes doom.

Acha que ouviu tudo? Communion tem partes que combinam o atmosférico e o folk, assim como Now I Bleed. Já Porcelain Idols é intensa e forte como seu título, que não se faz necessária a tradução, que faz a ponte perfeita para a faixa de encerramento.

Com os teclados a frente, Magna Adversia combina o etéreo e o brutal com melodias grudentas com vocais desesperadores que ficaram ao fundo, dando o contraste e a beleza necessária para a coroação desse belo trabalho.

Muito bem produzido pela banda e co-produzido por Oystein G. Brun (Borknagar) e uma arte de impacto, feita por Marcelo Vasco (que é o próprio Mantus) são o complemento necessário que fazem deste trabalho um dos melhores álbuns de 2017.