3 de janeiro de 2012

FABIANO NEGRI: O FIM DE UMA BANDA PARA O NASCIMENTO DE DUAS

Por João Messias THE ROCKER

Uma notícia que deixou muitos fãs que acompanham a cena de Hard Rock foi a notícia do encerramento das atividades da banda Rei Lagarto, que para celebrar o fim do seu legado, lançou o trabalho de despedida The Clockmaker's Dream, que além de mostrar o Hard característico da banda, aposta na versatilidade em temas ora mais introspectivos, ora em temas mais pesados, fazendo deste um trabalho que merece ser ouvido.

E apesar do fim da banda, não há motivo para tristeza, pois seu vocalista, Fabiano Negri está na ativa e mostrando que continua fazendo muita coisa boa, como no seu primeiro disco solo, lançado em 2010 chamado A Pratical Guide To Throwing Money Away, além de dois novos projetos que tem tudo para saciar a sede de conhecimento de muitas pessoas: Unsuspected Soul Band e Dusty Old Fingers.

Nessa primeira matéria para 2012, Fabiano nos contou sobre o fim das atividades do Rei Lagarto, do seu disco solo, dos novos projetos e outras coisas que vocês conferem nas linhas abaixo, que foram divididas por tópicos, visando facilitar a leitura!

Com vocês, Fabiano Negri!

Rei Lagarto:

Capa do último álbum do Rei Lagarto
Imagem extraída da Internet

New Horizons Zine: Quando vocês sentiram que The Clockmaker's Dream seria um trabalho de despedida?
Fabiano Negri: A decisão de encerrar as atividades veio antes da idéia do álbum. Apesar de todos nós estarmos ainda envolvidos com a música em outros projetos, sentimos que manter a banda, com as expectativas que este nome gerava tanto pra nós como para o público mais fiel não era mais uma possibilidade. Mas não queríamos simplesmente “assoprar a vela” e enviar uma nota pra imprensa. Estamos sempre compondo, e a idéia de um álbum de despedida foi praticamente automática.

NHZ: E o interessante do trabalho é que ele é duplo e musicalmente dividido em duas partes: uma mais voltada para o Hard Rock e outra mesclando o Progressivo e os anos 70. Conte-nos o porquê desta divisão musical.
Fabiano: Foi muito interessante fazer este álbum, porque como sabíamos que era o último, não havia compromisso em se enquadrar em um ou outro estilo. Cada um expôs ali o que sentia no momento, suas influências, não houve tempo pra uma triagem, e no fim o resultado foi excelente. A diversidade sonora do álbum reflete exatamente as diferentes influências de cada membro.

NHZ: Ouvindo esse CD hoje, você mudaria alguma coisa nele?
Fabiano: Sempre eu acho que alguma coisa poderia ser melhorada. Mas se for pra pensar assim eu não lançaria nada. Sou muito perfeccionista, mas tenho que ter em mente a realidade de minhas produções e nunca deixar a busca pela perfeição atrapalhar o desenvolvimento de um trabalho. Na verdade fiquei muito contente com o resultado final do The Clockmaker’s Dream, se fosse pra mudar seria pouca coisa.

NHZ: Todos nós sabemos que hoje nenhuma banda independente consegue viver da venda de seus álbuns, e vocês disponibilizaram quase toda a sua discografia para download, e pelo menos dessa forma a banda se torna mais conhecida. O que mudou em termos de divulgação vocês terem disponibilizado seus discos na rede?
Fabiano: Esse é um assunto bastante recorrente. Talvez tenha demorado um pouco mais pra algumas bandas que pra outras, mas me parece que agora a grande maioria já está adaptada à atual realidade. Se por um lado a midia física não é um atrativo para obter a atenção do público, por outro a discografia disponível na rede leva sua música a qualquer lugar do mundo. O grande desafio na realidade é conseguir bancar uma produção de qualidade, cada vez mais a música esta se tornando um hobbie onde a gente coloca cada centavo que sobra depois de pagar as contas da casa, com uma renda vinda de outra atividade. Não tenho muito certo ainda na minha cabeça como resolver esse problema, se alguém tiver a solução por favor me avise!
Quanto à divulgação do trabalho, apesar da facilidade de se expor na rede, esbarramos com uma enxurrada de bandas que aparecem todos os dias no mundo inteiro e têm as mesmas possibilidades que uma banda que está há 20 anos na estrada. Aí você tem que encarar que o diferencial vai ter que ser a qualidade. A gente faz o melhor que pode e conta com sites, blogs e revistas especializadas, que são os principais meios hoje em dia de destacar o que pode ser um trabalho bacana.


NHZ: Apesar de encerrarem as atividades, vocês pensam em se reunir no futuro?
Fabiano: Nós não tivemos nenhum tipo de desentendimento, continuamos envolvidos com música, inclusive contamos ainda uns com os outros. O Rei Lagarto foi pra cada um de nós sem dúvida o trabalho mais importante de nossas carreiras. A banda acabou porque tivemos a sensação de que tínhamos chegado à nossa estação, e era a hora de descer do trem. Acho difícil uma reunião a não ser que isso pareça ser relevante em algum momento, ou pra nós, ou para o público. Por enquanto ficamos com a sensação de dever cumprido, e levamos na memória muita coisa boa que rolou nesses anos todos.

Carreira Solo:

Capa do álbum solo de Fabiano Negri
Imagem extraída da Internet
NHZ: No ano passado você lançou seu primeiro album solo, A Practical Guide To Throwing Money Away. Em que momento você percebeu que essas músicas não caberiam no Rei Lagarto? O que as pessoas estão achando do seu trabalho.
Fabiano: Eu estou sempre fazendo músicas, volta e meia eu me vejo com umas 15 músicas prontas, daí penso em que disco eu poderia colocar, e quando resolvo, descarto várias delas e faço novas. A idéia do álbum solo era de antes de voltarmos com o Rei Lagarto, em 2007. Eu ía lançar um disco, então retornamos com Rei Lagarto, pensei em selecionar umas músicas pra banda, mas no fim usamos pouca coisa e fizemos mais coisas novas.
Tinha muita coisa com uma roupagem extremamente pop nesse acervo, e não se encaixava com o estilo do Rei Lagarto, então não descartei a idéia do disco solo. Mas quando resolvi gravar outras coisas surgiram, e já que o disco não tinha compromisso nenhum com estilo, eu pude colocar fortes influências que eu tenho, e que, até então, estavam guardadas na gaveta.

NHZ: E o CD possui os mais variados estilos, tendo como Old Cat o seu maior destaque, pois nesta temos uma veia bluesy e um clima western, além de uma linha vocal carregada de emoção. Por curiosidade: foi muito difícil finalizar e graver essa música?
Fabiano: Como eu já disse sou perfeccionista, mas tenho um problema sério que vai totalmente contra isso. Odeio gravar uma coisa mais de uma vez. Então, o que vc ouve em Old Cat foi gravado em, no máximo, dois takes. Não gosto de ficar repetindo, acho que a vibe inicial fica perdida e a coisa começa a soar robótica. O Ricardo Palma, que é o técnico de som do álbum, vive dizendo que eu preciso ter mais paciência pra gravar. Mas isso é uma coisa que eu duvido que vai mudar! Nesse ponto sou muito chato (risos)!

NHZ: E quando falamos CD solo, é solo mesmo, pois você gravou a exceção do baixo, todos os instrumentos e produziu o trabalho. Como é ver o trabalho finalizado após a fase embrionária?
Fabiano: Mais fácil do que quando trabalho com uma banda. Eu já tinha as músicas prontas na minha cabeça e como fui eu que toquei e cantei já sabia exatamente como ficaria, afinal conheço bem a minha tosquice! Nesse ponto trabalhar como banda é bem mais dificil. Às vezes você imagina uma coisa e seu companheiro faz algo totalmente diferente.

NHZ: Você chegou a fazer shows para divulgar esse disco e se tem planos para algumas apresentações?
Fabiano: Fiz uma única apresentação na ocasião do lançamento. Eu gostaria sim de ter trabalhado mais o disco, mas estava envolvido já com outros projetos, e simplesmente não aconteceu. Mas eu gosto muito desse disco, quem sabe um dia não me dedico mais a ele?

Dusty Old Fingers
Foto extraída do blog da banda
 Novos Projetos:

NHZ: Você está com dois novos projetos, a Whigger Soul Band e Dusty Old Fingers . Como andam os preparativos para ambos e quando podemos esperar por lançamentos.
Fabiano: Está muito legal! A Whigger Soul Band mudou de nome. Infelizmente o termo Whigger que achavamos que teria uma conotação irônica, tem na verdade uma conotação racista, principalmente nos EUA. Como temos alguns contatos por lá resolvemos mudar o nome para Unsuspected Soul Band. Nessa banda estou trabalhando com o Yon Berry – baixista do Rei Lagarto – e com um time muito bom completado por Eliezer Oliveira (guitarra), Ric Palma (guitarra) e César Pinheiro (bateria). Nosso som é um Soul Rock bem raiz, com muita influência da Motown, mas com um acento Rock n’ Roll. Já estamos preparando o primeiro single e vamos cair na estrada em 2012, com um show que além de música de qualidade trará muito cuidado com a parte visual.
O Dusty Old Fingers conta com Eliezer e César na formação também. È um projeto que desenvolvi com o Tony Monteiro (jornalista da Roadie Crew) e que é uma espécie de ópera rock, que conta a história de Brian Jones, guitarrista e fundador da banda Rolling Stones. A banda é completada pelo experiente baixista Joni Leite que fez parte de uma das bandas mais icônicas da região, O Bando. Todas as letras ficaram a cargo do Tony, que diga-se de passagem fez um trabalho brilhante. Toda a parte musical ficou por minha conta e estamos em pleno processo de produção do álbum “The man who died every day”. O álbum deve estourar por ai no segundo semestre de 2012.

NHZ: E falando em lançamentos, você pretende lancá-los para download como no Rei Lagarto.
Fabiano: Não, apenas algumas amostras. Como estamos trabalhando numa produção mais requintada, esperamos que as pessoas enxerguem o valor das obras e comprem. Podem ter certeza que o produto final será caprichado!

NHZ: E fazer esse tipo de projeto de certa forma te fez querer se explorar mais musicalmente, querer ouvir outros tipos de música, voltar a ter aulas de canto, aprimorar-se em algum instrumento, etc
Fabiano: Estou totalmente mergulhado na música negra americana. A riqueza das produções e a qualidade dos artistas da Motown é uma coisa que me fascina. Estou dedicando minhas folgas para estudar e compreender a linguagem dessa música, que sempre amei mas nunca tive oportunidade para tocar e cantar. Espero convencer, afinal estamos falando de alguns dos artistas mais talentosos de todos os tempos.

Cena Nacional:

NHZ: Como você vê o perfil da garotada que ouve rock hoje? Eles valorizam as bandas nacionais que não estão na grande mídia?
Fabiano: Pra ser sincero, não tenho tido muito contato com “a garotada” de hoje. O som que eu faço, sem dúvida não é o que eles estão acostumados a ouvir. Acontece que o rock simplesmente não é mais a bola da vez. Nos anos 80 e 90 tinha muita porcaria também na grande mídia, mas era possível ouvir Aerosmith, Kiss, U2, Deep Purple, nas principais rádios do país e na MTV. Tinha aqueles que apreciavam e outros, provavelmente a maioria, que íam na onda e engrossavam o caldo. Hoje o rock como nós conhecemos saiu dos holofotes, e o público se restringe àqueles que realmente apreciam. Poucos valorizam bandas que não estão na vitrine. Sem contar com as milhares de banda que brigam hoje em dia por um espaço, inundando a internet com informações e músicas a todo o momento. Não culpo o público, é realmente dificil ouvir tanta coisa nova ao mesmo tempo e ainda curtir suas bandas favoritas. Mas tenho em mente que, se o trabalho for bem feito, todos podem ter o seu grupo de admiradores. É só não querer ser um superstar que tudo vai dar certo (risos).

NHZ: Quais bandas nacionais que você ouve hoje?
Fabiano: Fiquei muito impressionado com os álbuns do Tomada e do Carro Bomba, que saíram esse ano. Mas posso destacar também o Massahara, o Statik Majik e o King Bird.
Sempre que tenho tempo tento ouvir todos os lançamentos das bandas nacionais. Temos muita música boa rolando por ai.

 

Videoclipes:

NHZ: Vocês fizeram vídeos muito bem produzidos para Lady e Shall We Dance. Você possui planos de fazer algo do tipo para esses seus novos projetos?
Fabiano: Claro! Quero um material ainda melhor para ilustrar minhas novas bandas. Hoje em dia só a música não adianta para chamar a atenção. As bandas têm que investir muito para trazer um material de qualidade. Tanto a Unsuspected Soul Band quanto a Dusty Old Fingers estão trabalhando para oferecer o melhor para o público. E bota trabalho nisso!

Encerramento:

NHZ: Obrigado pela entrevista! Deixe uma mensagem para os leitores do New Horizons Zine!
Fabiano: João, obrigado por incentivar e apoiar artistas como eu.
Gostaria de agradecer a oportunidade de falar um pouco sobre a minha carreira e agradecer muito às pessoas que curtem e consomem o meu som em qualquer banda que eu esteja a frente. Enquanto muitos reclamam da dificuldade, eu prefiro agradecer. Com muito trabalho a gente sempre chega lá. Pode não ser aonde você imaginou, mas de alguma forma o reconhecimento aparece!
Muito obrigado e um grande abraço!

Um comentário:

Anônimo disse...

Valeu pela citação fabino, desejo a ti todo sucesso do mundo camarada. Abraço e Namastê.

Luis Carlos / STATIK MAJIK