22 de setembro de 2015

WAGNER GRACCIANO: "VAMOS DEIXAR DE SER GUITARRISTAS E NOS TRANSFORMARMOS EM MÚSICOS"

Discos solo de guitarristas (em especial os instrumentais) são em grande parte um emaranhado de técnica e malabarismos desnecessários, que em muito, só consegue arrancar aquele tipo de coisa:"Ah, esse cara toca pra caramba, mas não sabe compor. O que não acontece quando ouvimos "Across the Universe", novo trabalho do guitarrista Wagner Gracciano.

Unindo virtuose e melodia, o disco é uma espécie de resposta aos malabarismos que ouvimos por ai. Nesta entrevista ao New Horizons Zine, o músico nos conta da repercussão do CD, projetos, outros guitarristas e muito mais!

Por João Messias Jr.

Across the Universe
Divulgação
NEW HORIZONS ZINE: Wagner, você lançou em 2013 o seu primeiro álbum “Across the Universe”. Passados dois anos do lançamento, o que está achando da repercussão do mesmo perante público e mídia.
Wagner Gracciano: Os tipos de música menos favorecidos pela mídia popular não tem espaço no Brasil  e tem caído muito, por incrível que pareça. A música instrumental autoral tem perdido força frente aos vídeos de 1 minuto com improvisação, guitarristas tem feito carreira sem ter feito um disco na vida. Dentro desse quadro a receptividade do público ao álbum foi muito positiva dentre as pessoas que curtem a música instrumental, e morna no público que curte improvisação. Mas é compreensível, pois nos tempos modernos onde temos que dividir espaço com milhares de vídeos e músicas de todos os tipos pouca gente tem tempo para escutar uma música com mais de 4 minutos. Fora do Brasil o cenário é bem diferente, existe uma cultura que consume e prestigia esse tipo de música, o que foi muito bom para o meu trabalho, onde consegui muito mais atenção pelo público internacional. Para você ter uma ideia, de todas as vendas do disco 92% delas foram nos EUA, Europa e Ásia, apenas 8% foram no Brasil.

NHZ: O trabalho é dedicado a música instrumental, que prima pela variedade de estilos. Nele podemos encontrar desde momentos mais “guitarrísticos” como “Journey Into the Unknown” até coros do gospel tradicional como “As a Prayer”. Como encaixar vertentes distintas e mesmo assim manter a unidade do disco?
Wagner: Eu sempre fui assustadoramente eclético (risos). O trabalho é só um reflexo do que escuto diariamente, não conseguiria seguir um estilo apenas, Rock Progressivo é o mais perto que consigo classificar, pois teoricamente é o estilo que recebe mais influencias diferentes. Uma coisa que aprendi com a música erudita é ter um ou dois temas principais e tentar ligar todas as peças através deles, é basicamente isso que tentei fazer, criar uma história e conectar cada momento atrás do mesmo tema.

NHZ: “Across the Universe” foi produzido por você, mas a masterização do trabalho foi feita por Adair Daufenbach, o que deixou o álbum com um som jovial e marcante. O que o motivou a contar com este profissional tão conhecido em outros estilos como o metalcore?
Wagner: Sempre percebi que muitos trabalhos instrumentais não primavam pelas produções e sonoridade, sempre muito focados na parte de execução e solos, o que é natural, claro que os clássicos do estilo fizeram história. Quando ouvi o som do Adair gostei demais da timbragem e o cuidado com a sonoridade, imaginei que essa mistura ia fazer o trabalho ganhar outra vida, e não deu outra. Adair tem um ecletismo e um interesse em explorar o novo que casam perfeitamente com o som que eu faço, inclusive outros trabalhos que produzi faço questão de ter sua sonoridade em estilos totalmente fora do contexto rock. Tornou-se um amigo e com certeza essa parceria vai continuar nos próximos trabalhos.

Wagner Gracciano
Divulgação
NHZ: Falando no gospel, você é cristão e não esconde sua fé, pois no encarte do álbum colocou todas as referências bíblicas que o levou a escrever as canções. Você já enfrentou algum tipo de preconceito por isso?
Wagner: Muitos, sofro diariamente. Adotei uma linha de trabalho honesta, mas muito perigosa quase suicida (risos). Não me considero parte do mercado gospel por questões de ideologia e orientação, pois trato música como forma de arte e vivo dela. Acho esse rótulo muito limitador, pois se formos colocar em cada ideologia musical um estilo diferente de música vamos ter Motoqueiro Metal, Cara que leva Chifre Metal, Cara que quer comer mulher Metal, Cara que acredita em Caverna do Dragão Metal, Cara que é contra o governo Metal (risos), enfim, sou cristão e não sou obrigado e rotular minha arte por isso, nem para o meio cristão nem para fora da igreja. Fora do meio cristão, muita gente já deixou de conhecer meu trabalho por isso. A galera acha que no meio do meu disco vai começar “Entra na minha casa, entra na minha vida...”(N.do R.: Música do cantor gospel Régis Danese).Mas não, é música instrumental apenas. O fato é que sou cristão e isso faz parte da minha vida, seria uma tremenda hipocrisia e covardia esconder isso na minha arte pois ela faz parte de quem eu sou. Não quero ser rotulado por isso, pois quero levar a música para todos os lugares possíveis. Não sou músico gospel, meu som não é só para igreja, mas não escondo quem eu sou. Faço música e vivo dela, deixo espaço para cada um interpretá-la como quiser.

NHZ: Para viabilizar o álbum, você foi atrás da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do seu estado. Podemos dizer que é uma vitória, visto que este tipo de benefício é concedido em sua maioria a artistas de estilos de maior alcance popular. Conte como foram as negociações e qual a satisfação pessoal de soltar um disco de rock com um apoio cultural?
Wagner: Os editais estão abertos em todos os Estados, prefeituras e tem a lei federal também. Às vezes faltam projetos para serem avaliados, pois nós, os músicos, não ficamos atentos e deixamos a oportunidade passar. As leis foram feitas para artistas como nós que não tem condições de fazer trabalhos de qualidade do próprio bolso, então temos que correr atrás e fazer parte delas. Nos editais tem todas as informações de como fazer um projeto, está ao alcance de qualquer um. Uma coisa importante, não só para as leis, mas para a carreira de músico como um todo é sempre ter um currículo atualizado, com todos os folders, cartazes de eventos que participou, é um mercado competitivo e precisamos nos posicionar o tempo todo.

Wagner Gracciano
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NHZ: Essa conquista sua me fez refletir em uma questão. Hoje as pessoas preferem criticar o mundo da música em geral por ser um processo caro de se gravar um disco, o que é verdade. Mas a maioria delas não se preocupa em buscar alternativas como editais de cultura e formas alternativas como o crowdfunding. O que pensa sobre isso?
Wagner: É exatamente isso. Em geral o músico se prepara para tocar, dar aulas e pronto, tem dificuldades de falar em público de expor ideias com clareza, ter uma posição dentro da sua arte. Se as pessoas lessem mais e comentassem menos na internet o mundo seria bem melhor. Muita gente comenta sobre as leis sem ter o mínimo conhecimento sobre o assunto, na verdade, grande parte dos comentários sobre qualquer assunto na internet é sem ter o menor conhecimento. Nós somos artistas, nossa missão é levar arte e cultura ao povo, a música é um bem da humanidade, vamos nos valer disso para buscar alternativas e saber se posicionar no mercado.

Além da música em si, o que chama a atenção é o fato de ser um músico atuante no seu estado, em Goiás. Você ao lado de outros músicos, criou o Gyn 3. Conte mais deste projeto e qual a repercussão dele no estado e se pensa em levá-lo para outros estados, como São Paulo.
Wagner: Música é uma profissão muito difícil por si só, então precisamos nos movimentar o tempo todo. Se não tem espaço na cidade, invente, junte um grupo de amigos e faça barulho, descubra lugares para fazer apresentações e seja generoso. Uma coisa que fico triste de ver no mercado, e uma coisa que creio estar matando a música instrumental, é que o artista está unicamente interessado em se promover, e muitas vezes fazer com que as outras pessoas ignorem seus colegas, como se o fato do outro não ser visto vai garantir algum sucesso a mais. O Gyn3 foi uma ideia justamente do contrário. Se eu quero ter espaço para tocar preciso dar espaço para os outros. Criamos o evento para que guitarristas consagrados, músicos de forma geral e novos talentos através do concurso possam ter um espaço para mostrar seu trabalho. Isso criou uma cena na cidade que movimentou várias pessoas, onde colocamos em prática a ideia que coloquei no parágrafo acima: se aqui estava sem lugar para tocar, vamos criar espaço para todo mundo e automaticamente estarei criando um espaço para mim também. Devemos ser críticos ferrenhos do mundo ao nosso redor, mas mesmo sabendo das adversidades, inclusive da nossa profissão, devemos tirar a bunda da cadeira e fazer a coisa acontecer. A galera fica reclamando que não tem lugar pra tocar, mas quer criar um espaço para ele tocar sozinho achando que ele vai fazer mais sucesso por isso. Fazer um movimento musical é mais efetivo que ficar fazendo show pra meia dúzia de alunos (porque os colegas músicos não vão). Isso é uma coisa muito bacana aqui em Goiânia, todo mundo vai ao evento de todo mundo e no final sai pra tomar uma (risos). Seria maravilhoso conseguirmos levar essa ideia para outras regiões do Brasil, vamos trabalhar quem sabe da certo.

NHZ: Você já fez promo-tours aqui na capital paulista. Qual a importância deste tipo de trabalho na divulgação de sua música?
Wagner: Sempre bom poder falar do trabalho, expor as ideias musicais para as pessoas terem uma visão melhor da sua arte. O músico é um comunicador, e quem não pensa assim perde grandes oportunidades. Foi muito bacana estar em São Paulo e também nas outras regiões falar de música, composição, guitarra, enfim, falar do nosso universo é uma das grandes recompensas da minha profissão.

Wagner Gracciano
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Ainda falando na terra do Túlio Maravilha, outro guitarrista de destaque em seu estado é Walsuan Mitterran. Queria saber se conhece o trabalho do músico e caso positivo qual sua opinião.
Wagner: Grande músico. Goiânia tem grandes artistas, mas não sei o que acontece que tem pouco espaço fora daqui. Aqui dentro conseguem lotar eventos, ter seguidores, e fora do país também, mas no resto do Brasil não sei o que rola. Aqui a faculdade de música da UFG tem grandes nomes da música que viajam o mundo inteiro, como Fabiano Chagas, Diones Correntino, Eduardo Meirinhos, Pedro Martelli, mestro Jarbas Cavendish, Emanuel Gomes (que arranjou as cordas do meu disco) músicos incríveis como Bruno Rejan, Guilherme Santana, Roberto Milazzo e muitos outros que são de nível internacional. Aqui estou mais envolvido no meio da galera fusion e jazz que na galera roqueira mesmo, apesar de sempre abusar de drive nos shows (risos). Mas vejo as pessoas aqui mais preocupadas com o ao vivo e no contato direto que apenas na internet, ai acaba fazendo a ponte daqui direto pra fora, sem passar por Rio-São Paulo.

NHZ: Visto que estamos em 2015, podemos esperar um álbum de inéditas para este ano?
Wagner: O novo disco já está praticamente arranjado e já no processo de gravação. Desta vez vai ter algumas músicas cantadas, vou apostar numa nova estética. Está sendo feito em cima de uma nova história, mais crítica e contextualizada, um clima mais tenso. Além dos músicos que sempre estão comigo, vou contar com algumas participações. Por isso resolvi esperar para fazer o DVD dos dois primeiros discos com um material mais rico e histórias novas para contar. Fora que esse ano a agenda da workshops, shows e master classes estão bem bacanas.

Wagner Gracciano
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NHZ: Muito obrigado pela entrevista. Deixe uma mensagem aos leitores do New Horizons Zine.

Wagner: Muito obrigado ao New Horizons Zine pelo espaço, sempre muito bom falar com a galera. Uma coisa que sempre deixo é que temos que sair do quarto. O contato humano, a imprevisibilidade e a emoção de um show ao vivo foi o que fizeram a música algo tão mágico, e estamos trocando grandes mentes artísticas por vídeos de 1 minuto. Vamos apreciar a arte, deixar de ser guitarristas e nos transformarmos em músicos.

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