1 de dezembro de 2014

KAPPA CRUCIS: "O PRAZER DE TOCAR NUMA BANDA É A CHAVE DE TUDO"

De nada adianta ter um bom disco na mão se o grupo não se identifica com a obra. Esse não é o caso do quarteto paulista Kappa Crucis, que em seu segundo álbum, "Rocks" conecta o leitor em sua sonoridade, que possui contornos do classic rock e o mais importante: com um clima alto-astral e nos leva a refletir sobre muitas coisas, inclusive sobre o nosso papel na cena. Ponto para o grupo atualmente composto por Gérson Fischer (voz e guitarra), R. Tramontin (baixo), A. Stefanovitch (teclado) e Fábio Dória (bateria).

Na entrevista feita com Gérson e Fábio Dória, os músicos contam da sonoridade do trabalho, o fato de lançarem o trabalho de forma independente, shows, o momento do estilo e a arte do trabalho.

Por João Messias Jr.
Fotos e Imagens: Divulgação

Rocks
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NEW HORIZONS ZINE: Parabéns pelo excelente trabalho desenvolvido em seu novo trabalho, o álbum “Rocks”, que mergulha no classic rock, numa sonoridade gostosa de ouvir, refletir, viajar e o mais importante: abordando um conceito único, original. Qual o cuidado que a banda possui no desenvolvimento da sonoridade, para que não soe parecido com isso ou aquilo e com a “leveza” de suas canções, fazendo com que o disco seja ouvido de uma vez?
Gérson Fischer - A principal característica que temos nesse sentido é de tentar soar da forma mais natural possível,  sem forçar a barra, respeitando  os gostos pessoais de todos na banda. Nunca tivemos a preocupação se vai soar parecido com isso ou aquilo, a autenticidade fica a cargo dos ouvintes.

Fábio Dória – Obrigado pelas palavras. Realmente não temos uma intenção inicial de como as músicas devem soar nos momentos de compor, desenvolver e arranjar. Deixamos a nossa natureza fluir.

NHZ: O que estão achando das resenhas e repercussão de fãs em relação ao novo álbum?
Gérson Fischer - A melhor possível. Agradecemos do fundo do coração os  elogios e críticas positivas, o que nos da mais força em prosseguir com a banda.

Fábio Dória – É gratificante ver que as resenhas têm sido extremamente positivas, especialmente quando dizem que nosso trabalho é autêntico. Recebemos isso com muita satisfação. Quanto aos fãs, suas palavras ou gestos que demonstram seu envolvimento com nosso trabalho ajudam a alimentar a chama de nossos sentimentos e de nossa dedicação ao rock. Como podemos nos sentir em fazer o que gostamos e ainda agradar pessoas com isso?

NHZ: A banda optou por lançar o trabalho de maneira independente. Porque lançarem dessa forma? Houve o interesse de gravadoras daqui e do exterior?
Fábio Dória – Desde o início do projeto optamos por fazer de maneira independente. Não procuramos ninguém, mas claro que estamos sempre abertos a conversas. Hoje em dia quem tem a mínima noção de como funciona o mercado do heavy rock, sabe que existem cada vez mais lançamentos oficiais de forma independente. A confecção do produto até sua finalização, independente ou com gravadora, passa por todo um processo idêntico que não se resume só a música em si. As diferenças basicamente se resumem na distribuição e divulgação.

NHZ: Falando em exterior, como anda o nome Kappa Crucis na América do Norte e Europa?
Gérson Fischer - Hoje com os diversos meios de comunicação com certeza vários lugares nesses continentes já ouviram falar da banda. Não sabemos até que  nível nosso nome está repercutindo.

Fábio Dória – Ainda não temos um parâmetro para avaliação nesse sentido. Posso apenas afirmar que já foram publicadas matérias sobre o Kappa Crucis em alguns países. O disco anterior está a venda há algum tempo na Europa e pretendemos fazer “Rocks” seguir o mesmo caminho.

Kappa Crucis
Divulgação
NHZ: Antes de falarmos do conjunto da obra, algo que chama a atenção há algum tempo é o fato de muitos jovens estarem resgatando o som praticado nos anos 50, 60 e 70. Inclusive temos muitos grupos surgindo como o Scorpion Child, além do interesse de gravadoras como Nuclear Blast e Century Media nesses novos grupos. O que pensam sobre isso?
Fábio Dória – Desde que isso seja feito com envolvimento, paixão e compromisso, se torna algo com valor. Se for algo feito numa onda sem sentido, apenas com interesses comerciais, não haverá força. É importante haver uma conscientização de qual é a raiz do rock.

Gérson Fischer - É bom saber que a galera mais jovem está abrindo a cabeça, pois o heavy metal não começou nos anos 80. Ele vem de muito antes. É preciso conhecer e respeitar as origens bem como não querer ser o dono da razão. 

NHZ: Falando nas gravadoras, o que acham que falta para elas investirem em grupos brasileiros que fazem esse tipo de som, como exemplos Alba Savage, Dusty Old Fingers, Saturn e o próprio Kappa Crucis?
Gérson Fischer - É complicado, pois a impressão que se dá é que só quem toca som extremo ou heavy metal power melódico com solos a velocidade da luz e dois bumbos é que chamam a atenção, e as gravadoras vão nessa onda pois elas querem divulgar o que está em evidencia. No dia em que mais e mais pessoas começarem  a curtir bandas com sonoridade mais antiga, talvez as gravadoras abram os olhos e mude seus conceitos.

Fábio Dória – Creio que em meio a queda vertiginosa de venda de CD’s, as gravadoras tem se contido mais em investir e arriscar. Acredito que seja necessária uma combinação muito bem pensada de planejamento com uma boa dose de arrojo. Afinal, estamos em um meio onde a moda não diz muito, correto?

NHZ: A capa é muito bonita também. Feita por Robson Ferreira, ela apresenta constelações rochosas em tons escuros. Quase que predominante às cores cinza e preto, que combinam perfeitamente com o conceito musical do disco. Para chegar nesse resultado rolaram aquelas trocas intermináveis de arquivos e idéias ou foi como nos anos 70, no primeiro take?
Gérson Fischer - Já tínhamos uma idéia pré-concebida, vamos dizer assim. Logicamente alguns detalhes foram surgindo conforme fomos montando a capa, mas sem distanciar do conceito original do que queríamos. Foi feita de forma bem rápida, mas não em um take somente.

Fábio Dória – Eu e o Gérson fomos umas quatro vezes a casa do Róbson. Passamos a idéia inicial e sempre que íamos lá desenvolvíamos mais um pouco. Entre uma ida e outra, Róbson lapidava nossas idéias com seu grande talento e imensa boa vontade com a banda. Isso tudo até chegar ao resultado final.

NHZ: Infelizmente o artista faleceu e não teve tempo de ver a capa estampada no disco. Qual o sentimento do grupo em relação a essa perda?
Fábio Dória – Os sentimentos de Róbson pela sua arte estão registrados em “Rocks” e em “Jewel Box”. Sentimos muito sua perda, cerca de cinco dias após nos entregar o trabalho pronto. Somos gratos por toda sua dedicação. Um grande artista e uma pessoa muito sensível!

Gérson Fischer – Uma perda muito dolorida para todos nós. Ficam nossos eternos agradecimentos a essa pessoa fantástica por todos esses anos. Sua arte ficará estampada para sempre em nossos corações.

NHZ: O timbre vocal de G. Fischer é muito interessante, pois é limpo e além de fugir dos urros e berros, nos permite entender cada linha que é cantada. Junto com os riffs, cozinha e teclas, qual o papel da voz na música da banda?
Gérson Fischer - O lance do vocal não difere no que diz respeito ao som da banda, ou seja, natural e sem se preocupar se vai soar com isso ou aquilo, mas buscando captar essencialmente o sentimento da música.

NHZ: Falando um pouquinho nas canções, algumas que me marcaram ao ouvir o disco foram Mecatronic, Invisible Man e o encerramento do trabalho com The Braves and the Fools, que apesar de irem em direções diferentes, chamam a atenção pelo clima de alto astral, que gera ao ouvinte a sensação de prazer, algo até contraditório com a mística do rock. Queria a opinião de vocês sobre isso.
Gérson Fischer - Ouvimos todos os tipos de comentários sobre o álbum, mas no geral achamos muito legal em saber que nossas músicas despertam vários tipos de sentimentos. Isso mostra a versatilidade de nossas composições o que nos deixa realizados como artistas. 

Fábio Dória – É interessante saber que nossas músicas transmitem esse tipo de emoção. Já ouvimos depoimentos de outras sensações também. De qualquer forma, é muito gratificante saber que nossas músicas despertam emoções nas pessoas.

NHZ: Com um belo disco debaixo do braço, o lance é se apresentar para promovê-lo. E uma bela oportunidade que os fãs de classic rock tiveram de ver a banda foi no fetival Roça n Roll que aconteceu nos dias 16 e 17 de maio, em Varginha. Como pintou o convite e o que acharam os mineiros acharam da apresentação do grupo?
Fábio Dória – Desde o lançamento de “Jewel Box”, nosso álbum anterior, temos procurado divulgar bastante nosso trabalho. Já tínhamos um contato com os organizadores e após o lançamento de “Rocks” fomos convidados para tocar no Roça n Roll. Entendo isso como uma recompensa e um reconhecimento de um trabalho com muita dedicação, comprometimento e envolvimento como fazemos. Claro que foi uma alegria muito grande o convite. Participar de um evento que é uma referência no heavy rock é uma realização e tanto. Gostamos muito da receptividade que tivemos de nosso show, considerando que foi a primeira vez que muita gente pode conferir nosso trabalho.

Gérson Fischer - Agradecemos todas as pessoas da organização do festival pela atenção e por depositarem suas fichas em nós, uma vez que o Roça N' Roll é um dos maiores festivais de rock pesado do país. Quanto a apresentação, achamos muito positiva. Foi mais um degrau que subimos em nossa carreira.

Kappa Crucis
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NHZ: Para encerrar, vivemos um momento de certa forma confusa na cena nacional. São várias bandas bradando que apóiam o rock, metal e reclamam que as pessoas não vão aos shows, não compram o merchandising dos grupos e tal. Mas, analisando friamente, vemos que a maioria dessas bandas não sabe a sua missão na cena, seja se divertir ou levar um trabalho sério, com perspectivas a médio e longo prazo. O que pensa sobre isso e, aproveitando, como vê o papel da Kappa Crucis na cena?
Gérson Fischer - O prazer de tocar numa banda é a chave de tudo, o resto é conseqüência. Quanto o papel do Kappa Crucis na cena, achamos que viemos para somar para as pessoas que realmente gostam de celebrar o rock n'roll e não só por vaidade.

NHZ: Muito obrigado pela entrevista. Deixem uma mensagem aos leitores desta publicação?
Gérson Fischer - Obrigado pelo espaço. Desejo aos leitores muita paz, consciência e muito rock n' roll.


Fábio Dória – Nós é que agradecemos pelo espaço concedido. Grande abraço a todos

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