17 de maio de 2012

LUIS COFFEE: SEM ESQUECER AS RAÍZES


Um dos responsáveis pelo grupo Underground Brasileiro conta de seus projetos e o que de melhor acontece na cena alternativa


Por João Messias THE ROCKER


Luis Coffee
Foto: Divulgação
Os fanzines foram muito importantes na propagação de conteúdo na cena Underground, principalmente nos anos 80, onde não havia internet e essa era a forma mais eficaz de divulgação da cena!

Para quem não sabe o que é um fanzine,era uma espécie de revista feita em sulfite, que era datilografado ou manuscrito e de uma matriz eram feitas várias cópias para serem distribuídas mundo afora, eu mesmo cheguei a ter dois nos anos 90.
Com a internet, parecia que eles estavam destinados ao esquecimento. Mas embora não existam tantos como antigamente, seu conceito está propagado na web, principalmente em blogs e redes sociais.
E escolhemos um representante desta linha literal para ser o nosso entrevistado de hoje, Luis Perossi, ou Luis Coffee, que nestas frentes mostra como se pode divulgar bem um trabalho, além de mostrar sempre o que acontece na cena Underground!
Confiram a entrevista!


João Messias THE ROCKER: Luis, olhando seus trabalhos na web, percebo uma grande fidelidade ao que era feito com os fanzines. Qual a importância de manter essa conexão com o presente e o passado?
Luis Coffee: Acredito que a linguagem do fanzine é atemporal. Por mais que estejamos inseridos no contexto ultra tecnológico e por mais que digam que é algo superado, eu tenho quase que diariamente notícias de publicações do estilo fanzine.

Claro que não tanto quanto antes, mas é algo que se mantém e que não foi engolido por novas tecnologias, ao contrário, foi agregado. Acho que meus trabalhos “internéticos” ressoam a linguagem “fanzinística” (existe esse termo? - risos) pois foi a minha “escola, digamos assim. É importante pra mim pois é a raiz, “Don’t Forget Your Roots”, já diz uma letra do H2O.

THE ROCKER: Queria que contasse sobre seus projetos, em especial o blog “Meus Amigos Bebem Muito Café”. Por que escolheu este nome?
Luis: Cara, a história do nome é a seguinte: eu havia feito vários zines, e todos davam um puta desespero pra achar um nome. Aí comecei apelar pra nomes de músicas. Até hoje eu gosto muito de uma extinta banda de campinas chamada No Class, e o encarte do CD era inspirador, parecia um zine, com comentários relativos às letras e tal, e na canção “too tired to think”( http://www.myspace.com/noclasscampinas/music/songs/too-tired-to-think-2283618) havia  uma frase que dizia algo como “ a casa estava invariavelmente suja, meus amigos bebiam muito café...” esta afirmação faz parte da letra aliás.

Eu pensei que soaria legal e diferente este nome para um fanzine, e acho que foi dali que meu vicio por cafeína se potencializou também. O blog é a versão online do fanzine, mas com a vantagem (ou não) de ser “em tempo real”. O espírito é o mesmo do fanzine, o foco é cultura underground. Antigamente o fanzine “meus amigos...” trazia coisas mais pessoais, porém, no mundo da web eu desvio estas paradas pro meu blog pessoal, o “coffee boy”.
Tenho outros projetos, alguns musicais, outros de ilustrações voltadas ao street art,outros literários, e por aí vai.

THE ROCKER: Interessante seu trabalho junto com outros batalhadores “das antigas” nas redes sociais, em especial o grupo Underground Brasileiro, onde vocês destacam muitos eventos relacionados à música, cultura e arte. Para você, qual a importância de divulgar esses eventos do Underground?
Luis: Mano, a importância é total, pois fortalece algo que não tem muito espaço. Pra mim, é a essência do punk e de toda e ideologia dele, o lance do faça você mesmo. Quanto mais divulgação e acesso, melhor, pois o Brasil é giantesco, e lá no grupo fico sabendo de outras cenas que sequer imaginava.

A iniciativa deste grupo no facebook foi do Marcello Kaskadura, uma figura ícone do underground e referência pra mim, que sou de uma geração posterior a dele (não estou o chamando de velho, hein (risos).

Eu já ouvi algumas pessoas dizendo que começou a tocar mais e fazer inúmeros contatos depois que o grupo surgiu, e isto sintetiza a importância e o propósito do grupo ao meu ver.

Luis Coffee
Foto: Divulgação
THE ROCKER: Falando em arte, quem faz algo bacana nesta área é o pessoal do Projeto Encontros, que ocorre nas estações de Trem e Metrô, onde temos shows, exposições e danças, tudo de forma gratuita. Você conhece e o que acha dessa iniciativa?
Luis: Poxa, iniciativa sensacional, levar arte onde está o povo. Eu vi um dia de relance no metrô, vi algo semelhante no terminal de ônibus de São Matheus uma vez, mas não sei se faz parte do mesmo projeto. Acho que é bacana pra divulgar o trabalho e maravilhoso pra quem vê, sou fã de iniciativas assim.

THE ROCKER: E sem querer soar saudosista, mas nos tempos dos fanzines, a maioria dos fãs de cultura alternativa se encontrava, e hoje com a facilidade da informação, muitos preferem se esconder no computador, “tocando o terror” nas redes, criticando a tudo e todos. O que pensa disso?
Luis: Posso falar mesmo o que eu penso disso? (risos)!

Zoado mano! Hoje em dia ta difícil alguém dar a cara a tapa, e todo acontecimento, por mais fútil que seja, é motivo pra se ter opinião e vomitar regras, dogmas, criticar, e falar merda. O lance das redes sociais só escancara uma faceta já existente.

Eu penso que se não é pra somar, construir algo positivo, não merece relevância. Isso que você disse é uma grande verdade. Muita gente se esconde, fica de idéia torta, fala mal de pessoa X,Y,Z, é super engajado em causas e movimentos, mas nunca colou no rolê pra saber qual é.
Só lamento, e espero que essas pessoas acordem pra vida, antes que seja tarde demais.Estão perdendo a chance de viver experiências legais e positivas. Claro que eu não colo em todo protesto que existe, todo som ou evento, até porque muitos são simultâneos, mas sempre que possível eu me envolvo e tento ajudar, ou ao menos não atrapalhar.

THE ROCKER:  O que você destaca (blogs, bandas, eventos) na cena Underground hoje?
Luis: Em termos de underground naquela verve zine, tem o The Book do Heder Honório, que cumpre de maneira super eficiente o lance de resenhas, sons, é um fanzine eletrônico. Tem o Tumblr do Jaja Felix, menino super correria no campo da ilustração, se chama 13fanzine, e traz trampos FUDIDOS de vários artistas plásticos undergrounds, como o Rogério Geo, Flávio Grão, Matheus Quinan, entre outros.E tem o  blog  e fanzine Zinismo, sensacional!

Entre os eventos, o Verão Revolução e o Anti-Fest do Fábio “Nenê” Altro, e o “Domingo Cultural” que aconteceu no estúdio CIAM na Zona Leste de São Paulo, estão entre os que eu destacaria, mas tem inúmeras coisas que às vezes eu nem fico sabendo.

Quanto á bandas, tenho reparado muito no pessoal do RAP, e afirmo que eles são exemplo de união e força de vontade. De Racionais MC’s a Emicida, de Criolo a Inquérito, de Tubaína a Rapadura, todos criam seu espaço e dão a idéia certa e positiva. No meio hardcore, gostei bastante do Asfixia Social, Atos de Vingança, Nunca Inverno e do alternativo, Twinpines, Le ballet de Frida, Lex Complex e Jacks Revenge me empolgam muito! Das antigas destaco  Againe que ta voltando, Deserdados, Dance of Days,Melody Monster e uma pá de banda , é foda, não da pra citar tudo.

THE ROCKER: Conte-nos um pouco da sua banda, o Cannibal Coffee (shows, proposta e gravações).
Luis: A banda é nova, esta compondo algumas canções, iríamos até gravar um split com o Satanic Sharks, mas eles acabaram! Quando tivermos um repertório próprio legal, dá pra encarar alguns shows. A proposta é experimentar, quebrar rótulos e paradigmas, ao menos é o que senti quando nos reunimos. Mesclar tudo o que nos influencia misturar Doom Metal com Rap e Hardcore, por exemplo, que são influencias minhas, do Heder e do Marcello.

E estarmos sempre abertos a novos sons e experimentos. Não vejo a hora de ensaiarmos  com mais integrantes, que estão chegando pra somar (surpresa)!

THE ROCKER: Para encerrar, vou citar algumas particularidades daquela época e queria sua opinião a elas: Carta Social, Fitas K7, Flyers.
Luis:

Carta Social: Era complicado comprar selo social no correio, apelava pro xaveco da ONG, quase fiz uma atendente chorar dizendo que minha ONG era pra famílias de presidiários que não tinham grana pra mandar carta. Mancada né? Mas eles regulavam a venda dos selos. Reza a lenda que alguns passavam cola sobre os selos para reutilizá-los, mas não sei se é verdade.

Fitas K7: Recebia várias, o carteiro juntava todas com um elástico e tacava a tijolada na porta da minha casa, era tenso isso aí, (risos). Poxa, era o MP3 da época!

Flyers: Coisa linda isso aí, tenho ate hoje centenas numa pasta, mas parei de colecionar anos atrás.

THE ROCKER: Obrigado pela entrevista! O espaço é seu!
Luis: Obrigado você pela oportunidade, continue neste seu trabalho que é de extrema importância, dou o maior valor, “é nóiz.”

4 comentários:

Daniel Lima disse...

Esse é o mlk zica do DIY, rs.

CADÁVER AMADOR disse...

Grande Luisinh!!
is we

coffeeboy disse...

valeu pelo espaço querido joão!! parabéns pelo seu trabalho, fundamental!

Jajá Félix disse...

É isso ai mano, vida longa a cena!!