23 de maio de 2014

FOR HEADS: “A SENSAÇÃO DE OUVIR A PALAVRA APROVADOS É SENSACIONAL”

Não é novidade pra ninguém que o heavy metal é algo presente em nossa vida desde cedo. Para uma minoria, uma moda passageira, mas para outros, é algo que segue até o fim dos dias. Junto com a fidelidade, sempre surge nos fãs de música pesada, a vontade de fazer algo a mais para que o estilo propague cada vez mais. Alguns montam bandas, outros fotografam, escrevem e uma boa parte para o jornalismo, como o pessoal do For HeadS. Os então estudantes Afonso Rodrigues, Flávio Camargo e Rodrigo Paneguine escolheram o metal como tema do seu TCC e dessa escolha foi criado o documentário Metal SP, que contém depoimentos de figuras importantes da cena, como Ricardo Batalha (Roadie Crew), Régis Tadeu, Julio Feriato (Heavy Nation), que falam do momento atual da cena metálica no Brasil e dos primeiros tempos.

Confira a primeira parte desta entrevista, em que os meninos contaram da escolha do tema, convidados e a famosa e temida hora da banca.

Por João Messias Jr.
Fotos: Divulgação

For headS com Ricardo Batalha
Divulgação
NEW HORIZONS ZINE: Vocês se juntaram para fazer um trabalho de TCC, do qual foi concebido o Metal SP, que faz um recorte da cena do heavy metal em São Paulo. Como surgiu a ideia?
Afonso Rodrigues: Primeiramente, obrigado pelo convite! Eu, o Flávio Camargo e o Rodrigo Paneghine, além de outros colegas de turma formávamos um grupinho na faculdade, desde o início da graduação em Jornalismo em 2010. Porém, em 2012, quando o tema TCC surgiu, o grupo se dividiu devido ao fato de que cada integrante tinha um assunto em mente para tratar no trabalho de conclusão de curso. Eu sempre tive vontade, obviamente, de fazer algo que gostasse e que pudesse não ser apenas o capítulo final de minha graduação como jornalista, mas o início de algo maior na qual eu pudesse dar prosseguimento na minha carreira. Então, eu tinha vontade de falar sobre Jornalismo Cultural/Musical (que é a minha editoria favorita no Jornalismo). Vi que existiam TCCs sobre Jornalismo Investigativo... Internacional... Enfim, gostaria de saber como era trabalhar na área, qual era o retorno... De modo geral, compreender esse segmento em um âmbito histórico e profissional com entrevistas com jornalistas no formato documentário (Rádio & TV era a minha segunda opção de graduação)... Algo quase “metalinguístico”. (risos) Ao longo daquele ano cada integrante seguiu o próprio caminho ou de forma independente partindo para uma monografia ou entrando em outros grupos de TCC. Porém, em outubro de 2012, o Rodrigo me propôs a ideia de retomarmos a parceria com os velhos colegas e, assim, terminamos o curso de Jornalismo juntos. Eu topei e Flávio também. No início de 2013, começamos a ter a orientação da maravilhosa professora Lilian Crepaldi. Já no primeiro encontro, ela pediu que fizéssemos um recorte mais específico: “Bem, eu estou vendo que vocês se vestem de preto, são amigos... Gostam de Rock, não é? Porque vocês não fazem algo voltado à música?” Aquilo era tão óbvio pra mim que na minha cabeça era algo fora de cogitação. Porém, percebi que era a hora perfeita de quem sabe falar de Heavy Metal (minha paixão) sério pela primeira vez. Já começava a imaginar como seria legal, no futuro, olhar para trás e ver que fiz um documentário (meu formato favorito) e sobre Metal (meu estilo favorito)! Minha biografia ficaria ótima! (risos) Dei a ideia e expliquei os motivos de ser assunto interessante, como o fato de que nos últimos anos mais e mais shows de bandas internacionais estão acontecendo aqui em São Paulo, além do interessante “boom” do nascimento de blogs e sites especializados, por exemplo. Vimos que não tinha nenhum documentário com tema semelhante na internet. Nascia aí o projeto “Metal SP”! Nome em referência às clássicas coletâneas “SP Metal”. Que era, de fato, entender o cenário atual do Metal paulistano de diferentes pontos de vista entrevistando músicos, jornalistas e fãs.

Flávio Camargo: Quando o grupo foi formado definimos que o projeto seria um documentário com foco no jornalismo cultural, preferencialmente relacionado com música. Na hora de dar início ao projeto definimos, de forma superficial, temas que despertassem a vontade do grupo como o classic rock, o rock oriental e o heavy metal. Esse último foi escolhido pelo ineditismo do recorte que faríamos.
Eu não sou tão próximo do gênero, embora conheça e admire algumas bandas. Por isso vi o projeto como um desafio. Pude conhecer algo novo e colaborar com a produção de algo original.

Rodrigo Paneghine: Após muitas ideias que não levaram a nada, nosso grupo original se separou. Cada qual em um canto, surgiu a ideia dos três se juntarem para fazer um documentário. A ideia inicial, de falar sobre música, foi do Flávio. O Afonso cogitou o tema ser sobre heavy metal. A partir daí foi apenas refinar o assunto e chegar ao gênero com foco na cidade de São Paulo.

For headS com Julio Feriato
Divulgação
NHZ: E como foram os preparativos, as ideias de entrevistados. Diga-nos essa etapa de preparação e planejamento?
AR: No início, foi difícil, pois jornalistas sem contato é nada... Como não fazíamos parte do meio, não tínhamos o contato de bandas, assessorias ou jornalistas. É claro, eu já tinha uma grande lista de nomes que eu gostaria de ver no documentário. A professora Lilian, então, passou alguns nomes de entrevistados possíveis e que ela conhecia. O Rodrigo trabalha no prédio de Segurança Pública do Estado de São Paulo e lá ele fez amizade com o Nelson Corneta. O Nelson foi o nosso primeiro entrevistado. Ele foi o representante da categoria “fã de Metal”. (risos) Foi bom começar com alguém mais próximo ao invés de fazer o primeiro teste de cara com algum músico ou jornalista. Começamos devagar e aos poucos fomos fazendo outras entrevistas. Uma delas com o jornalista João Messias Jr, você o conhece? (risos) Conforme íamos entrando no meio mais facilmente conseguíamos os contatos. Assim, surgiram grandes nomes como Amilcar Christófaro (Torture Squad), Fernanda Lira (Nervosa) e Edu Falaschi (Almah, ex-Angra). Outros nomes surgiram com as facilidades que a internet nos proporciona. Fizemos contato com alguns entrevistados por e-mail e por “in box” na rede social Facebook (risos).

FC: Desde o início tínhamos uma ideia clara de como o projeto deveria ficar. Nenhum de nós queria, simplesmente, um vídeo longo com vários depoimentos que não despertassem o interesse do espectador. Por isso definimos uma lista de nomes que nos interessavam, tanto pela bagagem quanto a forma de transmitir o conteúdo. Já os detalhes logísticos do documentário foram definidos com o barco em curso mesmo.

RP: O Afonso, com seu conhecimento do cenário, surgiu com uma lista de possíveis entrevistados. Em trio, planejamos os que seriam melhores. Apesar de nem todos responderem, a maioria foi bem receptiva. Ao mesmo tempo, levantamos uma pesquisa sobre heavy metal e subgêneros, orientados pela professora Lilian Crepaldi.

For headS com Edu Falaschi
Divulgação
NHZ: O interessante do documentário é que vocês não ficaram restritos ao passado e conseguiram em pouco tempo sintetizar bem o que foi a cena, falando com algumas referências da cena, como Ricardo Batalha (Roadie Crew), Regis Tadeu e gente nova que vem representando como Julio Feriato e Fernanda Lira (Heavy Nation). Como surgiram os contatos e o que acharam da recepção dos mesmos sobre o documentário?
AR: Bem basicamente, o nosso foco foi tratar do cenário atual e não o do passado. Algo novo está surgindo. A cena está sim se movimentando. Os headbangers estão se movimentando e criando conteúdos. Não dá para ficar apenas em saudosismo. Queríamos fazer um retrato histórico atual. O Rodrigo foi o nosso “Relações Públicas”. Ele foi o responsável por batalhar, na maioria das vezes, para conseguir os contatos com os entrevistados. A recepção dos entrevistados, felizmente, foi 101% positiva! (risos) Ganhar elogios vindo de Júlio Feriato, Ricardo Batalha, Fernanda Lira... É algo que me deixou tão feliz que eu salvei e-mails e até tirei “prints” dos comentários positivos no Facebook! (risos) Isso é gratificante... É como se fosse um atestado te dizendo: “Vocês marcaram um golaço! Continuem assim.” O legal é que os próprios ajudaram na divulgação. Logo, ganhamos muitas visualizações do vídeo no YouTube graças a eles. A notícia do lançamento (em 25 de janeiro de 2014, em homenagem ao aniversário da cidade de São Paulo) do “Metal SP” foi repercutida em vários veículos: Whiplash, Metal Samsara, Stay Heavy, Canal TV Aberta, Combate de Rock da UOL, Double Blog, New Horizons Zine...

FC: Em um primeiro momento tínhamos nomes e não sabíamos como entrar em contato. As primeiras entrevistas tiveram um longo intervalo. Entretanto, após entrevistar nomes como Ricardo Batalha e Maurício Java as coisas ficaram mais fáceis pelos contatos que eles nos deram. Aliás, a maior parte dos entrevistados se conhecia, o que comprova a solidez da cena na cidade. A minha impressão foi muito positiva em relação à receptividade dos entrevistados. Todos ficaram animados e ansiosos para saber como o projeto ia ficar.

RP: A maioria foi bem receptiva. Alguns mais difíceis de conseguir contato (assessoria não responde, não possui facebook / twitter pessoais, etc), porém muitos foram por meio direto. Batalha, por exemplo, respondeu os e-mails e logo marcamos um local / horário para gravar. Em geral, todos foram bem solícitos.

For headS com Régis Tadeu
Divulgação
NHZ: Após as entrevistas, mudou alguma coisa em relação aos entrevistados? A admiração virou algo negativo?
AR: Pra mim, nada mudou. Continuo admirando o trabalho de cada um dos entrevistados. É algo até engraçado, pois a sensação que tive foi a de segurança, já que ao invés de surtar com a presença dos entrevistados, eu me senti como se já os conhecesse! (risos) A diferença é que agora eles estavam em 3-D ali na minha frente. (risos) Conversei com o Ricardo Batalha sobre a Roadie Crew em off, demos risada com Júlio Feriato, Fernanda Lira e Amilcar, debati com Régis Tadeu e até tomamos café da tarde com o Edu Falaschi (risos)! A imagem de ídolos intocáveis que nunca cultivei continuou não existindo e, provavelmente, não existirá. Essa “frieza” minha até me surpreendeu. Não me olhava com um apenas um fã entrevistando um ídolo. Eu me via como um jornalista entrevistando outro profissional. Mas destaco dois casos distintos em particular... Quando fomos entrevistar o Régis Tadeu, novamente, não gerei expectativa, mas deu para perceber que meus companheiros de grupo estavam interessados em saber se o Régis era mesmo aquele “personagem” amargo da TV. A sinceridade dele foi algo que sempre admirei e é isso o que faz ser diferenciado com crítico. Aprendi muito com ele quando fomos até o condomínio onde mora. Minha admiração por ele aumentou um pouco, sim. É provavelmente, o meu maior ídolo neste meio do Jornalismo Musical. O lado negativo foi que um dos entrevistados se portou visivelmente de uma forma fria conosco. A sensação é que ele estava pensando: “Tá... Vamos acabar logo com isso que eu tenho mais o que fazer...” Apesar disso, a entrevista foi muito boa, porém ela para por aí... Quero contar todas as histórias dos bastidores do processo de construção do documentário em um livro. Tem muita coisa boa e cômica ali! Ah!... Tenho que confessar, porém, que ao final da entrevista com o Falaschi eu peguei um autógrafo (risos)!

FC: Entre os três integrantes eu sou o mais afastado do gênero, por isso das entrevistas acabei tirando minha primeira impressão dos personagens que entrevistamos e ele foi positiva em todos os casos.

RP: Ao contrário. Confesso que, no caso de alguns entrevistados, conhecia superficialmente. Antes das entrevistas, nós pesquisávamos sobre os cantores e jornalistas, e isso me mostrou bandas e trabalhos que eu desconhecia.

For headS com Bruno Sutter
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NHZ: Em documentários, a parte mais tensa é a edição, pois há muita coisa boa que, devido ao tempo, não aparece da devida forma ou é limada. Houve  algumas partes que foi muito triste ter de deixar de fora?
AR: Felizmente, este sentimento de perda não ocorreu, pois desde muito cedo eu já tinha combinado com o Rodrigo que o documentário seria lançado com a marca For headS. Logo, a ideia era de que após o lançamento do “Metal SP” na internet eu irei também lançar as entrevistas de forma avulsa com materiais inéditos, como se fosse uma banda lançando faixas bônus ou o conteúdo não utilizado para o álbum oficial (risos). Aos poucos estou conseguindo publicar estes materiais. Tem muita coisa boa também ali. Aos curiosos, inscrevam-se no nosso canal no YouTube e curta a nossa fan page no Facebook para não perderem as novidades.
FC: Nós sabíamos que o documentário tinha um limite de 24 minutos desde o início, por isso tentamos realizar entrevistas mais diretas e focadas justamente para evitar tanto material extra. Obviamente acabamos com muita coisa de qualidade que não pode ser usada. Mas não há como ficar triste já que todo o conteúdo que ficou de fora será exibido por meio do For Heads, que o Afonso Rodrigues vêm tocando muito bem.

For headS com João Messias Jr.
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NHZ: Como foi a apresentação do trabalho para a banca? O que a banca e convidados acharam de For Heads?
AR: A sensação de escutar a palavra “aprovados” é sensacional... Uma coroação. Passamos por alguns problemas técnicos na hora da banca. No caso, os entrevistados que aparecem com microfone (Alex Rangel, Bruno Sutter e Ricardo Batalha) estavam mudos no vídeo. Após o momento de tensão, conversei com o pessoal da parte técnica de vídeo da faculdade e o problema foi resolvido, porém alguns internautas ainda reclamaram deste mesmo problema na net. Enfim, a banca foi uma oportunidade única(risos)! Ao invés de me sentir amedrontado, estava muito relaxado afinal era o melhor tema possível pra mim. Pude me sentir como uma espécie de professor de eavy Metal ao explicar para a banca as diferenças entre subgêneros no mesmo. (risos) Parecia que não era uma banca... Eu falando e defendendo o Metal na minha banca final de graduação em jornalismo... Isso é algo que sempre lembrarei e destacarei na minha vida. Eles gostaram do “Metal SP”. Afirmaram que ao invés de queremos “abraçar o mundo” e falar do gênero como um todo resolvemos falar apenas do cenário da cidade de São Paulo. Outro ponto positivo de destaque foi o de “quebra de estereótipos”. Um dos professores se surpreendeu com a postura do público ao ver o tamanho, a diferença de idade e sexo: “Na cena da fila (em referência a nossa cobertura ao show do Black Sabbath) estavam todos tão felizes que pareciam que estavam indo â um parque de diversões”. A ideia do prosseguimento do projeto com o veículo For headS também foi elogiado principalmente quando disse que a proposta era a de criar conteúdos que fossem tão bons que qualquer pessoa pudesse querer ver, independente se é super fã de Metal. Que seria algo mais leve, aberto e didático.

FC: Acredito que conseguimos na banca o melhor cenário possível para tal evento: os professores e o público estavam aprendendo sobre o assunto. Ter a oportunidade de apresentar um tema como o heavy metal para pessoas que não conhecem tanto (situação que eu vivi durante a produção) é recompensador. Nos faz pensar que atingimos o objetivo de um trabalho de conclusão de curso, que é justamente produzir conteúdo acadêmico de qualidade que proponha um debate.


RP: Excelente! Alguns entrevistados estiveram presentes e a banca adorou. Um comentário de um convidado que não vou esquecer foi "não pensava que este era um cenário tão rico. Preciso conhecer mais".

Na próxima semana colocaremos a segunda parte desta entrevista

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