5 de novembro de 2013

WAEL DAOU: "NO LÍBANO, O ROCK E O METAL ERAM PROIBIDOS"

Aqui no Brasil, graças a sua divindade cultural e musical é possível no mesmo evento musical reunir diversas tribos, seja ela formada por emos e diehards. Agora, algo impossível de se imaginar para nós ocidentais é não podermos manifestar a nossa devoção ao estilo que curtimos. 

Essa foi uma das experiências que o nosso entrevistado, o guitarrista paraense Wael Daou teve na temporada em que viveu no Líbano. Foi reunindo referências da música oriental, fusion, progressivo e metal que o músico concebeu o seu primeiro trabalho, o EP Ancient Conqueror, que como o título diz, fala dos grandes conquistadores da história mundial como Attila e Genghis Khan.

Nesta entrevista, Wael fala da concepção dos temas do trabalho, a vida no Oriente Médio e até de grupos como Orphaned Land.

Confiram.

Por João Messias Jr.

Ancient Conquerors
Divulgação
NEW HORIZONS ZINE: Wael, antes de falarmos do seu trabalho, conte-nos quando começou seu envolvimento com a música e como foi chegar na guitarra.

Wael: Meu interesse pela musica veio desde bem pequeno, entre 5 e 6 anos de idade. Mas somente quando meu tio morou um tempo em casa que tive contato com o mundo do rock e metal. Não demorou muito pra eu virar fã de Metallica e sonhar em tocar suas musicas na guitarra.

NHZ: Você chegou a tocar nas bandas Madame Saatan e Alma Cog. Como foi tocar nesses grupos e o que te proporcionou em termos de aprendizado.
Wael: Morei no Líbano dos 11 aos 17 anos de idade. Logo que eu voltei ao Brasil  estava doido pra entrar em uma banda, foi quando me avisaram do Madame Saatan, até então um estilo novo pra mim. O grupo tinha uma pitada de regionalidade nas musicas e ritmos brasileiros o que me abriu os olhos pra musica brasileira.

Já o Alma Cog foi idealizada logo após a minha saída com um intuito de mesclar o metal com o jazz. Cada membro da banda tinha uma vivencia diferente e gostos musicais bem distintos, isso gerou um resultado musical bem peculiar.

Wael Daou
Raoni Joseph
NHZ: Daí após um período no Líbano, você retornou ao Brasil e iniciou seu projeto solo, que tem como primeiro trabalho o EP Ancient Conquerors, que passeia pelo rock, metal, progressivo e fusion. Como desenvolveu essa sonoridade?
Wael: Sempre tive poucas influências musicais. Ao contrario do que pensam,  eu escuto pouca musica! Quando comecei a tocar, percebi que sempre eu acaba soando como alguém, apesar disso ser inevitável, eu não queria deixar isso tão obvio. 

Percebi que todos os nossos ídolos foram influenciados por alguém ou algo, então comecei a ir atrás da fonte de tudo isso, assim cheguei na musica clássica e no jazz. Foi quando eu me achei musicalmente, eu queria mesclar a agressividade do metal, com a leveza da musica clássica e a harmonia do jazz.

NHZ: Falando nesse país, diga-nos como é a cena de rock/metal no pais e se há algum grupo de destaque.
Wael: Na época que morei no Libano o rock/metal eram proibidos. Não existia uma cena forte porem, as poucas bandas que tinham no país eram unidas. Fazíamos shows escondidos e fugíamos da policia (risos), depois que a proibição acabou, teve um boom incrível no país, e as influencias que existem no sangue do povo árabe são incríveis. Milênios de historia e cultura transpassam na musica da região. Posso destacar no meio do metal alguns músicos como Elias Njeim, Sevag Hadjiam, Bilal Wehbe, e Omara Khaddaj.


NHZ: Um grupo do Oriente Médio que se destaca por aqui é o Orphaned Land, que se apresentou no país nesse ano. A banda israelense chegou a ser uma referência no seu trabalho?
Wael: Pra você ver como a musica une os povos! Todo o bom metaleiro no oriente médio já ouviu o Orphaned Land (risos). Conheci a banda há uns 10 anos e lembro muito bem o que eu pensei: ”Eles conseguiram !!!”.

Pra todos nós eles levantam a bandeira do estilo no mundo e somos felizes por isso. Existem dezenas de bandas tão boas quanto e que ainda estão galgando o mesmo caminho, e tenho certeza que chegarão tão longe como eles.

NHZ: O EP possui uma temática interessante, baseada nos grandes conquistadores de nossa história como Attila e Genghis Khan. Qual a inspiração para criar as canções? Chegou a fazer um trabalho minuncioso de pesquisa?
Wael: Eu queria recriar na musica um pouco da personalidade que cada conquistador tinha. Então, fiz uma pesquisa de como eles chegaram na sua ascensão, como eram suas táticas de guerra, e como eles tratavam seus inimigos. Alguns não tiveram que travar batalhas para alcançarem grandes conquistas. Demorou algum tempo para recriar  na musicas, as cenas que vinham em minha mente ao ler sobre os feitos desses homens, mas valeu a pena. No CD, encontrarão musicas rápidas densas e caóticas, outras melódicas e calmas, sempre com um toque épico no meio.

NHZ: Outra influência que aparece bastante é a new age nas canções, como em Attila the Hun. O que acha de artistas como Kitaro e Yanni?
Wael: Kitaro e Yanni são lendas vivas, porem Atilla foi inspirada na Obra de Dvorak Sinfonia Nº. 9 em Mi menor (Op. 95) “Sinfonia do novo Mundo” que pra mim é uma das musicas mais belas da historia.

NHZ: Wael, qual sua opinião para o mercado da música instrumental hoje?
Wael: A musica instrumental no Brasil ainda não é tão valorizada assim, ainda mais metal instrumental, (risos). Porém, a nível mundial existe um publico fiel,  fanático por isso e gravadoras especializadas no estilo. A música instrumental abre portas diferentes no mercado da musica, muita gente que nunca ouviu metal comprou meu CD, pela temática, harmonia, e comentam “ as partes pesadas tiram meu stress” (risos). Mas tenho certeza que se tivesse um gutural ali no meio, essas pessoas não iriam gostar. Para uma mente criativa, a musica instrumental não tem inicio meio e fim, ela é infinita e a cada dia ela representa algo diferente para o ouvinte.

Wael Daou
Raoni Joseph
NHZ: Interessante que você usa uma guitarra de oito cordas, o que fará o ouvinte imaginar que seja um trabalho na linha Meshuggah, mas vai num sentido oposto, sem dissonante e afinações super baixas. O que te motivou a usar esse tipo de instrumento para o trabalho.
Wael: Já se usa violões de sete cordas ha muito muito tempo na musica erudita. A minha ideia de um instrumento de oito cordas é a harmonia e não somente o peso, eu pensei “Porra, beleza agora minha guitarra virou quase um piano!” (hehe) . Então tomei proveito disso e usei as opções adicionais de oitavas e inversões de acordes para encorpar melhor nas musicas a temática do CD. 

NHZ: Para encerrar, vou citar alguns guitarristas e queria sua opinião sobre eles: John Petrucci, Jason Becker, Kiko Loureiro e Marty Friedman.
Wael:
Jason Becker: O melhor!
Marty Friedman: Feeling e musicalidade!
John Petrucci: Técnica e musicalidade,
Kiko Loureiro: Levou o nome do Brasil para o mundo da guitarra rock mundial.

NHZ: Obrigado pela entrevista. Deixe uma mensagem aos leitores desta publicação.
Wael: Ajude sua cena e sempre se aprimore no estudo do seu instrumento. Não existe sorte e sim  oportunidades. Para aproveita-las, temos que estar preparados.

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