O Groundcast é um dos portais brasileiros que fogem do esquema de
sempre colocarem as mesmas bandas. Mesclando diversas tendências da música
alternativa, vem conquistando cada vez mais espaço numa cena saturada pela
repetição.
Nesta conversa, um de seus fundadores, Fabio Melo comenta do início do
site, cena nacional e as melhores e piores coisas ocorridas desde o início do
Groundcast.
Confiram!
Texto: João Messias Jr.
Imagens: Divulgação
 |
Groundcast Divulgação |
NEW HORIZONS ZINE: Fabio, como surgiu à idéia de montar o Groundcast?
Fabio: Vamos lá. Em primeiro lugar, eu tinha um blog de música como
a parte informativa de um blog de warez, que você pode encontrar ainda aqui: http://musicgroundpodcast.blogspot.com.br/.
O meu grande problema era que as pessoas daquele site valorizaram pouco o meu
trabalho e, depois de me encher de alguns problemas, comecei a reparar que a
maior parte dos blogs e sites de música alternativa e de metal replicavam
sempre o mesmo conteúdo, era como se fossem clones. Em agosto, junto com meu
irmão, decidimos que havia a necessidade de fazer alguma coisa diferente,
voltada para as bandas que realmente eram independentes, coisas que apostávamos
na qualidade e assim nasceu o Groundcast.
NHZ:Vocês fazem um trabalho interessante, principalmente para quem
adora buscar por novos nomes na música pesada/alternativa. Como é o trabalho de
pesquisa e garimpo para matérias no site?
Fabio: Agradeço por considerar o nosso trabalho interessante,
senhor João. Para falar a verdade, hoje a gente pesquisa muito pouco, menos do
que deveria, pois recebemos muita coisa de gravadoras, além de sempre um amigo
indicar uma coisa ou outra. Como todos os que compõe o corpo de redação do blog
gostam de coisas novas, a gente sempre está em contato com bandas e artistas.
Muitas das coisas que descubro, por exemplo, vem das pesquisas que faço para os
artigos. O meu irmão e o Vitor são mais antenados na cena metal e assim
acabamos com uma troca bem interessante. E eu sou usuário de redes de streaming
como Spotify, o que contribui bastante com a ampliação do meu conhecimento
musical. Também gosto muito de ler textos teóricos sobre teoria da música,
teoria da formação do gênero musical, música erudita e até mesmo sobre música
regional de muitos países, incluindo o Brasil.
NHZ: Nesse garimpo, chegou a conhecer algum grupo do qual se tornou fã?
Fabio: Olha, vários. Vou citar alguns, mas corro o risco de
esquecer alguém: Los Colorados, Lagrima Negra, Psychofagist, Filtra, Ambassador21,
Lovelorn Dolls, Creature Feature, Jaga Jazzist, Cold Body Radiation, Cadaverous
Condition, This Will Destroy You, Alamaailman Vasarat, Grupo Klezmorim (um
interessante grupo nacional de música judia), Mari Chrome, Kant Kino, Victim!,
Black Sea, Ágona, aTelecine (a banda de industrial da Sasha Grey), A Forest of
Stars, Netra, Satanismo Calibro 9. Enfim, muita coisa, mas muita coisa mesmo.
 |
Fabio Melo e Gothic Prince Ken Divulgação |
NHZ: Em que a linha editorial do Groundcast difere do gosto pessoal dos
editores e colaboradores?
Fabio: A gente não diverge porque trabalhamos com aquilo que
gostamos e o nosso gosto, no geral, é bem variado. É claro que às vezes
publicamos uma nota aqui e ali de uma banda ou artista que não vamos com a cara.
Mas nada do que colocamos vai contra o nosso gosto pessoal, até porque o
pessoal aceita numa boa, sobretudo as minhas matérias, que tendem a não se
aproximar do gosto de algumas pessoas que estão conosco. Além disto, existe a
maturidade de respeitar o que se coloca no site. A equipe nunca foi contra nada
do que foi postado, uma vez que temos também uma maneira parecida de encarar as
coisas.
NHZ: Desde sua fundação, diga-nos quais foram as melhores e piores
coisas que aconteceram com o site.
Fabio: Vamos pelos piores, porque são poucos. Um dos momentos mais
chatos que tivemos foi com uma banda que pediu para retirar a entrevista que
fizemos com um ex-membro. Eu achei uma coisa tão infantil que hoje a banda não
aparece mais nas nossas postagens. Em segundo, quando teve o show do Clan of
Xymox no Brasil, cujo vip de imprensa foi negado pela produtora ter dito que
não divulgamos adequadamente o evento, porém fomos os ÚNICOS a divulgar via
site e via facebook, além de comunidades especializadas em gótico.
Agora, bons momentos, tivemos
muitos. A cobertura do show do Mayan, mesmo sendo uma banda que não somos muito
fãs; as entrevistas com o Aaron (My Dying Bride), Stephan (Shiva in Exile),
Neige (Alcest, gravada em áudio), Roger (Goatlove, gravada em áudio), a entrevista
com o Last Leaf Down e o fato da banda ter pago um anúncio no facebook para nos
divulgar, o acordo com a Memorial Records da Itália, a parceria com a Island
Press, os contatos que mantemos com artistas entrevistados até hoje.
Também recebemos presentes das
bandas. Os melhores (ou seja, todos) que recebemos, além de álbuns, foram dois
livros da Donna Lynch e do seu marido (integrantes do grupo de rock
industrial/darkwave Ego Likeness), uma camiseta do Rise of Avernus em
comemoração ao aniversário do meu irmão, um cartão postal do I Shall Move the
Earth em comemoração aos dois anos de site. E também muitas vezes artistas
mandando discos para nós pela satisfação de mandar algo para nós, como é o caso
do Will Geraldo do VAIN (Violent Atittude if Noticed).
NHZ: Vamos falar um pouco dessa parte da Imprensa no rock. O que você
acha do nível das matérias dos outros veículos e da relação de
Assessores/Produtores/Bandas com os jornalistas e fotógrafos?
Fabio: Olha João, vou ser sincero e sem rodeios: a maior parte é uma
grande porcaria. Primeiro, com relação à matérias, eu adoro sites como o
Wikimetal e o seu, que produzem conteúdo autoral de qualidade, assim como o
Resíduos Tóxicos do meu xará, Fabio Tardelli. Mas no geral, é tudo muito ruim,
muito superficial, muito mais do mesmo. Um dos motivos que mantém o Groundcast
no ar é que produzimos material bom, seja escrito, seja com o podcast, seja com
alguns vídeos ou mesmo na fanpage, que tem um teor mais humorístico. Se
contabilizar tudo o que fazemos, pode ter certeza que produzimos mais que boa
parte dos grandes blogs.
A relação com jornalistas e
produtores é delicada. Com bandas, a gente nunca teve nenhum problema, até
mesmo porque preferimos artistas mais obscuros, que ficam felizes com alguém
tendo interesse pela banda.
Infelizmente, quanto a bandas
nacionais, o assunto é bem mais delicado. Explico o motivo: é muito difícil
para um veículo como nós chegarmos num grupo como o Angra ou mesmo o Krisiun.
Contudo, se pensarmos em termos de “banda grande”, conseguimos entrevistar
gente como a Cadaveria, o Aaron do My Dying Bride e o Enslaved. Ou seja, banda
nacional de médio porte há certo estrelismo que me incomoda muitas vezes. E
outros grupos nacionais pequenos tem um grau semelhante de arrogância ou vem
com aquela coisa de preferir veículos como o Wikimetal e o Whiplash.
A gente se faz crescer junto a
algumas poucas bandas pequenas que ajudam divulgando coisas que falamos sobre
elas. Posso citar o Imperia, o Lagrima Negra (um dos nossos maiores apoiadores),
entre outras.
NHZ: Você pensa que num futuro próximo poderemos ter profissionais de
imprensa especializados em rock com uma remuneração a altura de seu
conhecimento?
Fabio: Queria ser mais otimista com relação a isto, mas a resposta
é um retumbante não. Falta a nossos veículos de imprensa profissionalismo. Eu
tenho contato com diversos selos e gravadoras estrangeiras e o nível
profissional, a qualidade do material para imprensa, tudo isto pesa e muito
contra nós. Um dos motivos pelo qual eu não chamo gente que não seja minha
amiga para escrever no site é que para isto eu precisaria pagar e não tenho
como fazer isto. Sim, eu sei que parece sacanagem, é por esta razão que não
cobro muito dos colaboradores. O Groundcast tem um ritmo lento, mas que segue
bem do jeito que está. Fico muito feliz de termos sites como o Intervalo Banger
em veículos grandes como a MTV, porque isto mostra que espaço existe para blogs
e sites mais alternativos.
NHZ: Não é novidade para ninguém que temos shows internacionais a rodo
no país. Assim, o público deixa de prestigiar as bandas brasileiras para ver as
gringas. Em sua opinião, o que podemos fazer para melhorar essa situação.
Fabio: Vamos colocar em dois pontos. O primeiro, temos poucas
bandas nacionais realmente boas e interessantes para ouvir. A maior parte das
bandas querem apenas fazer um thrash metal oitentista ou um death metal sujo
igual ao das bandas americanas ou, no máximo, suecas. A gente não precisa
disto, precisamos de bandas que realmente toquem alguma coisa que valha a pena
ouvir. Este motivo afasta muita gente de grupos extremamente repetitivos. O
segundo é que, quando temos uma banda que seja boa ou inovadora, o pessoal
esquece porque fica com a imagem das trocentas bandas ruins que temos. Eu cito
como exemplo o pessoal do Reiketsu, um excelente grupo nacional de Sludge/Crust
e que vai tocar no festival Exhale the Sound em Minas Gerais.
Daí nosso público chega a ser
contraditório, porque torce o nariz para bandas nacionais por serem nacionais e
também cobram das nossas bandas novidades, mas não aceitam quando algumas
oferecem isto.
A solução talvez venha dos dois
lados. O público precisa parar de aceitar qualquer porcaria só por ser
nacional. Eu dou todo o apoio para um grupo nacional, até mesmo porque é bem
complicado manter uma banda. Mas não consigo engolir que sempre quando aparece
uma “revelação do metal nacional” venha muitos defender um grupo que certamente
é ruim. Aliás, entenda por revelação quase sempre uma banda de qualidade
duvidosa, mas com muitos seguidores que sequer prestam atenção ao se toca.
As bandas, do outro lado,
precisam pelo menos investir em identidade. Por mais que muitos possam xingar,
o Angra continua fazendo shows porque estabeleceu uma identidade entre tantas
bandas de power metal, assim como o Krisiun, tocando death metal, conseguiu seu
lugar com um som que você reconhece que é deles. No Brasil temos grupos como
Imago Mortis, Ágona, Black Sea, Herod Layne, Reiketsu, Huaska, Deventter, In
Vida, JohnWayne, Project46 e outros que NUNCA aparecem nos sites e nas listas
chapa branca da imprensa rock brasileira. São bandas excelentes, que mereciam
mais espaço, mas que são sufocadas no excesso de “mais do mesmo”.
Falta também mais união entre as
bandas e o seu público. Eu fui em dois eventos de metalcore e me impressionou
como as bandas e o seu público tem uma relação legal, além dos grupos se
ajudarem mutuamente. Eu nunca vi, por exemplo, um Angra apoiando uma banda que
não fosse de amigos.
NHZ: Também não se pode jogar a culpa apenas aos grupos do exterior.
Apesar das inúmeras bandas nacionais de qualidade, ainda nos deparamos com o
amadorismo em muitos eventos, seja por parte das atrações musicais e a
produção/organização. O que pensa disso?
Fabio: Olha, amadorismo existe em qualquer lugar. E no Brasil não
seria exceção. Mas parece que virou regra ser ruim por aqui.
Além de não podermos comparar
nossos eventos com um Wacken ou mesmo um HellFest, não temos muitos eventos
bons por aqui. Destaco o sempre maravilhoso Abril Pro Rock, que a cada ano se
torna um evento melhor e o já citado Exhale the Sound, trazendo bandas mais
experimentais. E isto tudo fora do eixo Rio-São Paulo.
Mas é verdade que somos muito
amadores em muita coisa. Um dos motivos de eu ir pouco a shows é que não vejo
porque pagar cem reais num evento que vou ter de ser encoxado e ficar
desconfortável. Nenhuma empresa que produz shows alternativos em São Paulo faz
um excelente serviço, embora alguma coisa tenha mudado. Temos alguns locais de
nível razoável, mas nada mais. Os bons locais, como o Cine Joia, ainda fica
restrito a grupos mais indie/experimental, o que é uma pena.
NHZ: Muito obrigado pela entrevista. Deixe uma mensagem aos leitores do
NEW HORIZONS ZINE.
Fabio: Queria mandar um beijo para minha mãe, para o meu pai...
brincadeiras à parte, gostaria de salientar que precisamos de veículos de
comunicação que não fiquem à sombra de bandas ou de panelinhas, mas que tenham
força para serem diferentes. Trabalhar em conjunto com os artistas e com outros
que também acreditam que os músicos menos divulgados merecem mais
reconhecimento. As bandas precisam valorizar os blogs e o pessoal pequeno da
imprensa, uma vez que são eles os que mais dão o sangue para ver a banda ser
divulgada.
And this story continues...